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Feb 26 2004

Various: Songbook João Bosco 3

Esmerado Trabalho

 

João BoscoTerceiro volume do songbook de João Bosco que ganhei no Natal e só hoje estou terminando de ouvir. Chegou a um ponto que me pegou “na veia” e tenho que repartir. Ou buscar eco, alguém que tenha sentido da mesma forma que eu, desbragadamente. Talvez cause espanto ou incomode essa minha maneira de sentir. Quiçá alguns nem acreditem. Exagero. Sensibilidade excessiva, sinal de que engatinho na evolução espiritual. Mas é assim, goste eu ou não, incomode aos outros, enfim, me recolho, “me requiebra el alma” mas não tem remédio… De novo me assalta esse ladrão da minha sanidade e preciso saber se alguém sorveu com a mesma delícia desse vinho bosquiano.

Qual a finalidade da Arte senão encontrar eco? O que buscamos todos senão ressonâncias, almas que por breves instantes se misturem a nossa, enrodilhadas ao toque da beleza que nos legou um poema, um quadro, uma canção, uma voz?… Todos buscamos o eco de nós mesmos. Tudo que nos motiva é, em suma, achar um espelho, o fundo do poço onde ressoe a nossa voz… E que ela reverbere e retorne maviosa… Pieguice. Exaltação além do suportável?… Tudo isso me define e é nesses momentos que me encontro ou me perco. E sempre a necessidade de saber se outros transitaram pela mesma vereda. Afinal, o que fazemos listas afora, digitando febrilmente, afagando com os dedos, brigando, mostrando um pouco de nós? Ou ocultando, apenas pra escutar o abençoado eco?…

Escuto e penso que alguém talvez tenha sentido exatamente como eu… E a caneta falha, como sempre ocorre quando quero escrever algo assim, algo que vem rasgando como “a angústia de um bolero”, numa folha qualquer (eu desenho um sol amarelo…), e as mãos suam… Não tem outra caneta por aqui? Cadê a bic que esta não presta? Onde vou achar uma p…. de uma bic? Uma bic ou o momento se esvai! Tava lá no criado-mudo. O desgraçado nada disse, alheio a minha sofreguidão, frio diante do meu ímpeto febril… Pudera, é mudo, coitado…

Repito o disco que agora já nem sei mais que diga. Queria falar sobre a trilogia do João Bosco, o tal songbook, último trabalho do Almir Chediak, “o último, ultimíssimo, the last”, como diria o Edgar Augusto na Feira do Som. E sigo escutando sem querer levantar pra nada mais, nem pra acender a luz; os olhos me doem, as sombras da noite caem… mas que sombra? “Ainda é cedo, amor”! O por-do-sol se pôs tão apressado, antes mesmo do sol deitar, nos últimos dourados e violáceos estertores bem no colo da baía do Guajará. E quem não gostaria de lá deitar-se, sabendo que pode voltar “do fundo do oceano que dá pra lá de Babá pra cá de Ali”?… até eu, se fosse o sol. Nuvens soturnas ameaçam a sexta-feira. Pouco se me dá, não vou sair, por mim escuto João Bosco até amanhã…

O songbook traz esmeros tais, surpresas irreais, mentiras musicais, no sentido de não se acreditar que seria possível uma interpretação nova que não deixasse a dever ao João Bosco, pra mim definitivo em tudo que ele grava. Quer dizer, com o perdão da Elis Regina que lhe roubou sem pejo tantas canções… menos “Corsário”, que essa, nem ela… Além de autor, cantor de rara voz, intérprete de desnudar a alma dos sons, ainda é de um egoísmo desmedido, não deixando margem a que outros possam lançar sobre si a tal nefasta cal do esquecimento.

Pois agora venho declarar que sim, posso o João Bosco sossegadinho de vez em quando, na terceira prateleira à direita, onde ele há de “quedar-se inerte” como certos processos, diante do que estou a escutar. Claro que não se trata da obra toda, bem ao contrário. Algumas canções ganharam roupinhas novas, outras vozes a cantar com igual sabor e diferentes nuances, arranjos que renovam o já ouvido, de tal maneira que podem conviver em harmonia com o compositor. Mas há outras interpretações que passam tão longe, não aportam no meu cais, vão sumindo, pequeninas, no horizonte diminuto diante desse arrebol cegante que é João Bosco; essas não merecem uma segunda audição, hei de ouvir tais canções sempre no original.

Causou-me forte impressão a Sandra de Sá em “Tiro de Misericórdia”, principalmente pela voz magnífica, ilimitada, que coisa quente, voz de chocolate. E olha que nem gosto da De Sá…

Pedro Mariano me vem de novo surpreender. Mas surpreender por quê? Melhor dizendo, de novo me vem agradar, nem dá vontade de ouvir o original diante de tal competência, independência, numa versão atual e agradável de ouvir. Bonitinha. Mas algumas me fizeram correr pra apagar dos ouvidos a conspurcação (putz!), como uma certa chatice que trouxe o meu filho lá de dentro, a pedir que, pelo amor de Deus, eu baixasse até acabar a música, que ele não suportava o cara! coincidentemente eu estava levantando pra procurar o Bosco e apagar aquele momento medonho.

Djavan em “Desenho de Giz”, quase apaga as marcas deixadas nas tais pedras do cais pelo Bosco… Um espetáculo de elegância e sentimento contido, próprio do Djavan. As duas interpretações podem conviver sem conflito nas minhas audições, até o Bosco há de apreciar a canção apresentada de outro jeito, na voz suave do Djavan, com o piano celestial do Leandro Braga, aquele acordeon de Chiquinho Chagas, que ornamenta como uma flor no cabelo, um toque de cor em negra cabeleira. Da primeira vez em que canta o trecho “quem pode querer ser feliz se não for por amor”, ah, escutem esse momento fugidio de perfeição e me digam se alguém no mundo pode cantar igual. E de novo, já no final, repete e zomba do sentido da palavra perfeição… zombam todos os instrumentos, como se cada um tocasse sozinho, meu Deus, como sou grata por esse momento bem aqui ao meu dispor, ao toque dos meus dedos!…

“Boca de Sapo” é moleza pra qualquer um, acho que até eu, cantando, agrado a mim mesma, com toda redundância já inerente à canção, se é que me entendem… É uma canção de não existir, um acinte, faz pouco da gente, de mim que nada sei de nada, em se tratando de música. Acho essa música gloriosa. Bom, ninguém acreditaria, considerando que outras pessoas sintam a música do meu jeito, digamos plebeu, que alguém conseguisse cantar algo que fica bonito de qualquer jeito, ainda mais bonito. Aí vem o Zeca Pagodinho e vocês em coro irritado berram: “Ah, não vale, Zeca Pagodinho?!” Pois é; ele consegue cantar uma coisa obviamente gostosa, até com farinha do Ceará (agora eu apanho…) ainda melhor. Incrível o resultado, só ouvindo. E o coro, gente, o coro tá o máximo, até o Almir, o que se foi – e agora, o que será de nós sem os songbooks?… – participa, num efeito esfuziante, de arrepiar todo lado direito da perna, cruzes! Pagodinho recriou, tomou posse, entrando no clima como compositor e encaçapou mais uma!

Paula Toller em “Papel Maché” também provoca uma reviravolta na minha acomodação musical. Nunca mas serei a mesma. Às vezes me lembra a Gal… Alguma coisa me instiga nesse número, mas não sei definir o que será… algo mais que dá mais perfeição, corpo e luz, o que pode ser? Parece que de repente Paula vai atrás, se joga e tem medo de cair e não voltar mais… Que voz linda dessa menina, não é? Peraí… quem toca, que negócio é esse? Gente, é só o Giamandu, o Yamandu?!!! Delicadeza e força juntas, uma voz e o violão. Esse garoto ainda vai longe…, muito longe, até eu ainda vou me render.

Nana Caymmi e “Falso Brilhante” são duas demonstrações de excelência musical, uma voz e uma canção especiais de novo, uma enriquecendo a outra. Não me provocou surpresa, foi só uma constatação. Nana Caymmi é tudo isso, “Isso e Aquilo”, que a gente já sabe, mas quer ouvir de novo; “Falso Brilhante” não tem nada de falso, é autenticidade de valor incalculável, que música! Nem por isso Nana, cantando a canção, deixou de me matar um bocado… É aquela flauta ressoando no final, os últimos acordes do piano… Égua!

É claro que Leila Pinheiro também se distingue dentre os eleitos… Uma garganta engastada no ouro das manhãs, jóia rara do Xá, ah, eu adoro a Leila Pinheiro! A voz! Não confundir criador e criatura… E vou ver quem a acompanha, quantos acompanham: só (só?…) o Guinga, fazendo às vezes de uma orquestra inteira a envolver a Leila. Fica até parecendo, tal a intimidade, que eles passaram 3 meses ensaiando, obsessivamente, como São João Gilberto. Belo efeito.

Fátima Guedes, Nelson Faria e Ney Conceição também entram na minha relação das melhores do volume 3 do songbook.

Mas o que eu queria mesmo quando comecei a escrever, era falar apenas de um intérprete, e o episódio da caneta quebrou a espontaneidade; precisei ouvir tudo de novo, recobrar a minha zenrenidade e domar essa selvageria que me causou escutar o Ney. A canção é do Bosco Pai e Bosco Filho, “Enquanto Espero”.

Sim, foi justamente o Ney Matogrosso, o arranjo, a canção, aquela dor de todos os amores abandonados a compor o bolero, lágrimas, tanto desalento me causou essa dor captada de alheios corações, que me assaltou a vontade de me ir afogar… – Alfonsina, me espera, que mergulho nas águas dessa baía e te encontro logo mais, entre algas e mururés…

A voz do Ney, quem há de negar? É uma griffe inimitável, ninguém há de alcançar aquele acento que é como um pedacinho do seu (e do nosso) coração que se derrama na sangrante voz de eterna juventude, de paixão que não se acaba, como um Dorian Gray eternizado nessa inimitável maravilha vocal. Para mim, ele atingiu o ápice nessa interpretação. E a canção também.

Pois é, eu sei que vocês vão dizer: não é bem assim… E vai ser proveitoso, de alguma forma, saber do que causou em vocês a audição do volume 3. Quem sabe não encontro ressonância desses momentos vividos na solidão da minha sala, num final de tarde, momentos tão plenos que quisera saber que outros tiveram alterada a rotina de seus dias com a riqueza desses sons?

Um abraço, ao som do bolero…

 

ALBUM INFORMATION

João Bosco
Songbook João Bosco 3
Lumiar LD66-05/03 (2003)
Tempo: 66’27”

Faixas:

  1. Bijuterias (João Bosco – Aldir Blanc) Burnier, Cartiet & Ed Motta
  2. Jade (João Bosco) Pedro Mariano
  3. O Ronco da Cuíca (João Bosco – Aldir Blanc) Lenine
  4. Tiro de Misericórdia (João Bosco – Aldir Blanc) Sandra de Sá
  5. Desenho de Giz (João Bosco – Abel Silva) Djavan
  6. O Mestre-Sala dos Mares (João Bosco – Aldir Blanc) Martinho da Vila & João Bosco
  7. Boca de Sapo (João Bosco – Aldir Blanc) Zeca Pagodinho
  8. Papel Machê (Capinam – João Bosco) Paula Toller
  9. Falso Brilhante (João Bosco – Aldir Blanc) Nana Caymmi
  10. Senhoras do Amazonas (Belchior – João Bosco) Leila Pinheiro & Guinga
  11. Sábios Costumam Mentir (João Bosco – Antonio Cícero – Wally Salomão) Jussara & Luiz Brasil
  12. Enquanto Espero (João Bosco – Francisco Bosco) Ney Matogrosso
  13. Nossa Últimas Viagens (João Donato – João Bosco – Aldir Blanc) Dominguinhos
  14. Saída de Emergência (João Bosco – Antonio Cícero – Wally Salomão) Fátima Guedes & Nelson Faria
  15. Dois Pra Lá, Dois Pra Cá (João Bosco – Aldir Blanc) Cauby Peixoto
  16. Siri Recheado e o Cacete (João Bosco – Aldir Blanc) Jards Macalé