Simone Guimarães
Casa de Oceano
Biscoito Fino BF-534 (2003)
Tempo: 51'26"

 

Paixão Fluida

 

Resenha de
Fevereiro 2004

Virada pra Lua
Faixas:
  1. Casa de Oceano (Simone Guimarães)
  2. Fogueteira (Simone Guimarães) - c/ Maria Bethânia & Maogani
  3. Coração do Mato (Sérgio Santos - Paulo Cesar Pinheiro)
  4. Desavença (Guinga - Simone Guimarães) - c/ Guinga
  5. Água Funda (Simone Guimarães)
  6. Milagre dos Peixes (Milton Nascimento - Fernando Brant) - c/ Milton Nascimento
  7. Zomba (Kiko Continentino - Bernardo Lobo - Milton Nascimento) - c/ Continentrio
  8. Frestas de Colinas (Nelson Ângelo - Luciana de Moraes)
  9. Canção Brasileira (Sueli Costa - Abel Silva)
  10. Retrato em Branco e Preto (Antonio Carlos Jobim - Chico Buarque de Holanda)
  11. Velho Moinho (Francis Hime - Olivia Hime) - c/ Francis Hime
  12. O Silêncio de Iara (Guinga - Felipe Gama) - c/ Guinga
  13. Vâmo Geraldo [vignette] (Simone Guimarães) - c/ Nair Cândia
  14. Piano no Fundo do Mar (Simone Guimarães)
  15. Música Incidentl, trechos de "Três Irmãs" (Simone Guimarães)

Produção e arranjos de Jaime Alem, excet0 (2) Maogani, (11) Francis Hime e (13) Simone Guimarães

Casa de Oceano, o quinto trabalho solo de Simone Guimarães, marca sua estréia em uma nova gravadora, a Biscoito Fino. O conceito deste álbum pode ser resumido na frase escolhida por Simone na dedicação apresentada no encarte do CD. Ela cita Lautréamont: "Eu te saúdo, velho oceano!" Trata-se, portanto, de um trabalho temático onde a água ocupa um lugar de destaque na maioria das canções aqui apresentadas. Das quinze canções do CD, nada menos que seis delas falam de rios, oceanos, mares, cachoeiras, peixes e sereias. A água serve de fonte principal para envolver amores, aproximar corações e esconder mistérios. Além destas, outras três canções retomam ainda outro tema favorito no cancioneiro de Simone: o vasto sertão, onde novos amores florescem. É óbvio que o amor se faz muito presente dentro destes temas.

"Casa de Oceano" principia com sons sutis de ondas brandamente servindo de fundo para um arranjo composto apenas de cordas e piano. Nesta canção-tema, como uma moda de viola, Simone descobre a força de um olhar que desperta emoções e cria toda uma vida. Esta vida é complexa, cresce, tem feridas e espinhos. Tudo na letra é descrito por meio dos olhos: as lágrimas que correm, os olhos traídos e até mesmo a fuga dos olhos para o mar. O uso destas metonímias dá um efeito muito rico para esta canção. Na faixa seguinte, "Fogueteira", o requintado quarteto de violões Maogani se junta a Maria Bethânia para acompanhar Simone nesta canção de amor. Nair Cândia também participa dos vocais e no final deste arranjo, Pantico Rocha é responsável pela deslumbrante percussão de maracatu, enaltecendo assim uma das mais ricas tradições do folclore brasileiro. Ainda dentro do campo do amor, "Coração do Mato" é cantada apenas com o acompanhamento de violão e viola de 12 cordas. Um dos grandes letristas da música brasileira, Paulo Cesar Pinheiro, nos brinda com versos comparando o coração com um sertão infindo.

Praia do BoldroOutras faixas que merecem destaque contam com a presença de alguns convidados especiais. A parceria de Guinga com Simone Guimarães em "Desavença" é um dos melhores momentos em Casa de Oceano. O arranjo nesta canção é jovial, especialmente com o trombone de Roberto Marques, e Simone parece se divertir com seu vocal ligeiro e bem jocoso. Naturalmente que o toque magistral de Guinga no violão não fica em segundo plano de forma alguma. Guinga ainda retorna uma segunda vez em "O Silêncio de Iara". Em outra faixa, "Milagre dos Peixes", a impressão que se tem é que esta canção foi feita para a voz de Simone. Junta com Milton, ela se mostra em casa e muito à vontade. O mesmo se pode dizer do clássico de Sueli Costa e Abel Silva, "Canção Brasileira" que é seguida por "Retrato em Branco e Preto" e "Velho Moinho". A propósito, neste ponto Casa de Oceano atinge momentos grandiosos. Nesta trilogia de amor e música Simone mostra um lado super romântico. Ela interpreta estas canções com uma garra ímpar e com uma força que claramente vem do âmago de sua alma. Particularmente em "Retrato e Branco e Preto" temos o solo criativo que Simone dá com o trompete de boca. O resultado é arrebatador na marcante letra de Chico Buarque. Com "Velho Moinho" ouvimos o arranjo mais orquestral deste álbum. Num estilo bem característico de Francis Hime, a canção é lírica e flui como se fosse um rio de águas mansas com Simone cantando os versos em forma de ode a um grande amor e vida. Em uma palavra apenas: arrebatadora!


Simone Guimarães fala sobre Casa de Oceano

Egídio - Como surgiu a inspiração pro Casa de Oceano?  Sei que a viagem a Fernando de Noronha está ligada ao conceito.  Pode falar mais?

Simone - Eu queria falar de amor e cantar as canções que eu tinha feito na época. Estava muito apaixonada e amando e queria falar dessa paixão. Sempre li Lautréamont e nessa época especificamente, eu tinha lido Cantos de Maldoror. Nesse livro ele faz uma exaltação ao oceano. Fiquei impressionada ao ver o quanto de amor ele empregava ao belo, ao que ele admirava mais. Falava com o Oceano como se ele fosse seu mais temível inimigo, ao mesmo tempo querendo ter aquele controle descontrolado das ondas sobre as tempestades e amando o Oceano como só ele fosse o foco dos seus olhos e o objeto do seu desejo.

Eu caminhava pela orla nessa época, numa pista muito bonita aqui do Rio, a Cláudio Coutinho, onde se fica em contato só com o mar. Saímos da cidade, predemos o contato com o barulho e só ficamos ouvindo o mar. Escrevi um texto para o Oceano, depois de uns dias li Lautréamont e achei que meu texto era nada perto do quão belo o Conde de Lautréamont havia feito. Esqueci o texto, escondi-o e comecei a canta pro mar. Esse CD é  do mar, a casa de todos os amores que tive.

Egídio - A sua veia autoral está muito presente neste trabalho, assim como nos anteriores. Por exemplo, "Água Funda", é uma bela canção.

Simone - "Água Funda" por exemplo nasceu com a música e letra juntas. Falo de onde eu venho, do rio e onde quero ser lembrada, lá, no meu rio, no brilho que as estrelas refletem sobre a água. Não fosse uma canção seria um poema póstumo.

Egídio - Outras três canções eu gostaria de abordar aqui: "Canção Brasileira", "Retrato em Branco e Preto" e "Velho Moinho".  O risco de gravar canções conhecidas pode afastar alguns artistas de tal abordagem. Você teve alguma dúvida quantas àquelas canções?  Por sinal, eu as acho um momento marcante em Casa de Oceano.

Simone - Essas canções falam dentro de mim. Não tive dúvidas. Não tenho dúvidas quando canto. O canto é mais natural que o pensamento. Tudo que eu canto passa por um filtro outro que nunca é o do pensamento racional, é mais próprio do pensamento inconsciente. Aquele que dorme na alma. "Canção Brasileira" é um leme ufano desse CD para mim; é meu amor inconstetável pela nossa música brasileira, resgatando a obra de dois dos pensadores mais brilhantes do meu país, para mim, Suely Costa e Abel Silva. "Retrato em Branco e Preto" e "Velho Moinho" são sinais do tempo e de sua engrenagem dentro de minha Casa de Oceano. São Chico e Olívia, Tom e Francis em um diálogo perfeito com a história dos amores. Quatro dos maiores artistas do meu Brasil. Sou fã incondicional de Olívia Hime. Olívia é minha Mona Lisa que escreve e canta. É linda em todos os sentidos. Garbosa, sofisticada, sóbria. Um pouco como Chico, também bastante sóbrio e profundo. Tom e Francis, amor em forma de canção. Perfeição. Fiz o que queria fazer: um disco de amor.

Água Funda
(Simone Guimarães)

Eu venho da água funda
Da água funda do rio
Sou filha do peixe-estrela
E com seus olhos me guio
Do cantar da uiára
No canto eu me desafio
Meu coração é a cara
E os meus olhos dois rios
Água de rio nunca pára
E eu vivo então por um fio
Um dia as águas me levam
E no meu rastro, meu trilho,
Hão de brilhar as estrelas,
Hão de cantar o seu brilho.
Um dia as águas me levam
E no meu rastro, meu trilho,
Hão de brilhar as estrelas,
Hão de cantar o seu brilho.

Egídio - Sua paixão pelo Brasil está bem refletida na sua música, sem dúvida. Você sempre canta sobre nosso folclore, nossors rios e tudo que é brasileiro.

Simone - Quero dizer que meu leme ufano de amor pelo meu país está firme cada vez mais inquebrável, construído de amor e canções, de histórias tristes e alegres, de um povo sofrido e bonito que cresce para o novo dia.

Egídio - Um(a) amigo(a) de verdade...

Simone - Leila Pinheiro.

Egídio - Um artista de verdade...

Simone - Leila Pinheiro.

Egídio - Uma coragem de verdade...

Simone - Ernest Hemingway, Leila Pinheiro e Guinga.


O encarte do CD apresenta todas as letras e músicos que participaram das gravações. É importante também ressaltar que as fotos do encarte são do arquivo pessoal de Simone quando de sua visita à Fernando de Noronha.

Ainda em 2003, Simone Guimarães também teve uma participação no álbum Villaggio Café - 10 Anos, onde interpretou "Desenredo", de Dori Caymmi. Ela também gravou duas músicas no novo lançamento de Cristina Saraiva, Só Canção. As músicas foram "Mestre Narciso" e "Beijo", ambas de Simone Guimarães e Cristina Saraiva. Ela também participou do 6º comPasso Samba & Choro (2003) acompanhada por Juarez Machado (violão) coma as canções: "Zomba" (de Casa de Oceano), "Imensidade" (de Virada pra Lua) e a nova "Rosa Querida".

MB E.L.