| Faixas: |
- Casa de Oceano (Simone Guimarães)
- Fogueteira (Simone Guimarães) - c/
Maria Bethânia
& Maogani
- Coração do Mato (Sérgio
Santos - Paulo Cesar Pinheiro)
- Desavença (Guinga - Simone Guimarães)
- c/ Guinga
- Água Funda (Simone Guimarães)
- Milagre dos Peixes (Milton Nascimento - Fernando
Brant) - c/ Milton Nascimento
- Zomba (Kiko Continentino - Bernardo Lobo
- Milton Nascimento) - c/ Continentrio
- Frestas de Colinas (Nelson Ângelo
- Luciana de Moraes)
- Canção Brasileira (Sueli
Costa - Abel Silva)
- Retrato em Branco e Preto (Antonio Carlos Jobim - Chico Buarque
de Holanda)
- Velho Moinho (Francis Hime - Olivia Hime)
- c/ Francis Hime
- O Silêncio de Iara (Guinga -
Felipe Gama) - c/ Guinga
- Vâmo Geraldo [vignette] (Simone Guimarães)
- c/ Nair Cândia
- Piano no Fundo do Mar (Simone Guimarães)
- Música Incidentl, trechos de "Três
Irmãs" (Simone
Guimarães)
Produção e arranjos de Jaime
Alem, excet0 (2) Maogani, (11) Francis Hime e (13) Simone Guimarães |
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Casa de Oceano, o quinto trabalho solo de Simone Guimarães,
marca sua estréia em uma nova gravadora, a Biscoito Fino. O
conceito deste álbum pode ser resumido na frase escolhida por
Simone na dedicação apresentada no encarte do CD. Ela
cita Lautréamont: "Eu te saúdo, velho oceano!" Trata-se,
portanto, de um trabalho temático onde a água ocupa um
lugar de destaque na maioria das canções aqui apresentadas.
Das quinze canções do CD, nada menos que seis delas falam
de rios, oceanos, mares, cachoeiras, peixes e sereias. A água
serve de fonte principal para envolver amores, aproximar corações
e esconder mistérios. Além destas, outras três
canções retomam ainda outro tema favorito no cancioneiro
de Simone: o vasto sertão, onde novos amores florescem. É óbvio
que o amor se faz muito presente dentro destes temas.
"Casa de Oceano" principia com sons sutis de ondas brandamente
servindo de fundo para um arranjo composto apenas de cordas e piano.
Nesta canção-tema, como uma moda de viola, Simone descobre
a força de um olhar que desperta emoções e cria
toda uma vida. Esta vida é complexa, cresce, tem feridas e espinhos.
Tudo na letra é descrito por meio dos olhos: as lágrimas
que correm, os olhos traídos e até mesmo a fuga dos olhos
para o mar. O uso destas metonímias dá um efeito muito
rico para esta canção. Na faixa seguinte, "Fogueteira",
o requintado quarteto de violões Maogani se junta a Maria
Bethânia para acompanhar Simone nesta canção de amor. Nair Cândia
também participa dos vocais e no final deste arranjo, Pantico
Rocha
é responsável pela deslumbrante percussão de maracatu,
enaltecendo assim uma das mais ricas tradições do folclore
brasileiro. Ainda dentro do campo do amor, "Coração
do Mato" é cantada apenas com o acompanhamento de violão
e viola de 12 cordas. Um dos grandes letristas da música brasileira,
Paulo Cesar Pinheiro, nos brinda com versos comparando o coração
com um sertão infindo.
Outras
faixas que merecem destaque contam com a presença de alguns
convidados especiais. A parceria de Guinga com Simone Guimarães
em
"Desavença"
é um dos melhores momentos em Casa de Oceano. O arranjo
nesta canção é jovial, especialmente com o trombone
de Roberto Marques, e Simone parece se divertir com seu vocal ligeiro
e bem jocoso. Naturalmente que o toque magistral de Guinga no violão
não fica em segundo plano de forma alguma. Guinga ainda retorna
uma segunda vez em "O Silêncio de Iara". Em outra faixa, "Milagre
dos Peixes", a impressão que se tem é que esta canção
foi feita para a voz de Simone. Junta com Milton, ela se mostra em
casa e muito à vontade. O mesmo se pode dizer do clássico
de Sueli Costa e Abel Silva, "Canção Brasileira" que
é seguida por "Retrato em Branco e Preto" e "Velho
Moinho". A propósito, neste ponto Casa de Oceano atinge
momentos grandiosos. Nesta trilogia de amor e música Simone
mostra um lado super romântico. Ela interpreta estas canções
com uma garra ímpar e com uma força que claramente vem
do âmago de sua alma. Particularmente em "Retrato e Branco
e Preto" temos o solo criativo que Simone dá com o trompete
de boca. O resultado é arrebatador na marcante letra de Chico
Buarque. Com "Velho Moinho" ouvimos o arranjo mais orquestral
deste álbum. Num estilo bem característico de Francis
Hime, a canção é
lírica e flui como se fosse um rio de águas mansas com
Simone cantando os versos em forma de ode a um grande amor e vida.
Em uma palavra apenas: arrebatadora!
Simone Guimarães fala sobre Casa
de Oceano
Egídio - Como surgiu a inspiração
pro Casa de Oceano? Sei que a viagem a Fernando de Noronha
está ligada ao conceito. Pode falar mais?
Simone - Eu queria falar de amor e cantar as canções
que eu tinha feito na época. Estava muito apaixonada e amando
e queria falar dessa paixão. Sempre li Lautréamont e
nessa época especificamente, eu tinha lido Cantos de Maldoror. Nesse
livro ele faz uma exaltação ao oceano. Fiquei impressionada
ao ver o quanto de amor ele empregava ao belo, ao que ele admirava
mais. Falava com o Oceano como se ele fosse seu mais temível
inimigo, ao mesmo tempo querendo ter aquele controle descontrolado
das ondas sobre as tempestades e amando o Oceano como só ele
fosse o foco dos seus olhos e o objeto do seu desejo.
Eu caminhava pela orla nessa época, numa pista muito bonita
aqui do Rio, a Cláudio Coutinho, onde se fica em contato só com
o mar. Saímos da cidade, predemos o contato com o barulho e
só ficamos ouvindo o mar. Escrevi um texto para o Oceano, depois
de uns dias li Lautréamont e achei que meu texto era nada perto
do quão belo o Conde de Lautréamont havia feito. Esqueci
o texto, escondi-o e comecei a canta pro mar. Esse CD é do
mar, a casa de todos os amores que tive.
Egídio - A
sua veia autoral está muito presente neste trabalho, assim
como nos anteriores. Por exemplo, "Água Funda", é uma
bela canção.
Simone - "Água Funda" por
exemplo nasceu com a música e letra juntas. Falo de
onde eu venho, do rio e onde quero ser lembrada, lá,
no meu rio, no brilho que as estrelas refletem sobre a água.
Não fosse uma canção seria um poema póstumo.
Egídio - Outras três
canções eu gostaria de abordar aqui: "Canção
Brasileira", "Retrato em Branco e Preto" e "Velho
Moinho". O risco de gravar canções conhecidas
pode afastar alguns artistas de tal abordagem. Você teve
alguma dúvida quantas àquelas canções? Por
sinal, eu as acho um momento marcante em Casa de Oceano.
Simone - Essas canções falam
dentro de mim. Não tive dúvidas. Não tenho
dúvidas quando canto. O canto é mais natural que
o pensamento. Tudo que eu canto passa por um filtro outro que
nunca é o do pensamento racional, é mais próprio
do pensamento inconsciente. Aquele que dorme na alma. "Canção
Brasileira" é um leme ufano desse CD para mim; é meu
amor inconstetável pela nossa música brasileira,
resgatando a obra de dois dos pensadores mais brilhantes do meu
país, para mim, Suely Costa e Abel Silva. "Retrato
em Branco e Preto" e "Velho Moinho" são
sinais do tempo e de sua engrenagem dentro de minha Casa
de Oceano. São Chico e Olívia, Tom e Francis
em um diálogo perfeito com a história dos amores.
Quatro dos maiores artistas do meu Brasil. Sou fã incondicional
de Olívia Hime. Olívia é minha Mona Lisa
que escreve e canta. É linda em todos os sentidos. Garbosa,
sofisticada, sóbria. Um pouco como Chico, também
bastante sóbrio e profundo. Tom e Francis, amor em forma
de canção. Perfeição. Fiz o que queria
fazer: um disco de amor. |
Água Funda
(Simone Guimarães)
Eu venho da água funda
Da água funda do rio
Sou filha do peixe-estrela
E com seus olhos me guio
Do cantar da uiára
No canto eu me desafio
Meu coração é a cara
E os meus olhos dois rios
Água de rio nunca pára
E eu vivo então por um fio
Um dia as águas me levam
E no meu rastro, meu trilho,
Hão de brilhar as estrelas,
Hão de cantar o seu brilho.
Um dia as águas me levam
E no meu rastro, meu trilho,
Hão de brilhar as estrelas,
Hão de cantar o seu brilho.
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Egídio - Sua paixão pelo
Brasil está bem refletida na sua música, sem dúvida.
Você sempre canta sobre nosso folclore, nossors rios e tudo que é brasileiro.
Simone - Quero dizer que meu leme ufano de amor
pelo meu país está firme cada vez mais inquebrável,
construído de amor e canções, de histórias
tristes e alegres, de um povo sofrido e bonito que cresce para o novo
dia.
Egídio - Um(a) amigo(a) de verdade...
Simone - Leila
Pinheiro.
Egídio - Um artista de verdade...
Simone - Leila Pinheiro.
Egídio - Uma coragem de verdade...
Simone - Ernest Hemingway, Leila Pinheiro e Guinga.
O encarte do CD apresenta todas as letras e músicos que participaram
das gravações. É importante também ressaltar
que as fotos do encarte são do arquivo pessoal de Simone quando
de sua visita à Fernando de Noronha.
Ainda em 2003, Simone Guimarães também teve uma participação
no álbum Villaggio Café - 10 Anos, onde interpretou "Desenredo",
de Dori Caymmi. Ela também gravou duas músicas no novo
lançamento de Cristina Saraiva, Só Canção.
As músicas foram "Mestre Narciso" e "Beijo",
ambas de Simone Guimarães e Cristina Saraiva. Ela também
participou do 6º comPasso Samba & Choro (2003) acompanhada
por Juarez
Machado (violão) coma as canções: "Zomba" (de Casa
de Oceano), "Imensidade" (de Virada pra Lua)
e a nova "Rosa Querida".
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E.L. |
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