Música Brasileira from A-Z
lyrics

 

 

Simone Guimarães
Aguapé
Tiê/CID 03004/5 (1998)
Tempo: 41'38"

 

Um de Seus Melhores Trabalhos

 

Resenha de
Outubro 2003

Aguapé
Faixas:
  1. Aguapé (Edmundo Souto - Paulinho Tapajós) c/ Zé Renato
  2. Baião Barroco (Cavalo-Marinho) (Juarez Moreira - Simone Guimarães)
  3. No Tempo dos Quintais (Sivuca - Paulinho Tapajós)
  4. Pato Preto (Tom Jobim) c/ Danilo Caymmi
  5. Cantos pra Despertar (Simone Guimarães - Cristina Saraiva) c/ Elba Ramalho
  6. Estrela Guia (Ivan Lins - Vitor Martins) c/ Ivan Lins
  7. Hermanos (Simone Guimarães - Cristina Saraiva)
  8. Relento (Simone Guimarães - Cristina Saraiva)
  9. Minha Terra (Simone Guimarães - Cristina Saraiva)
  10. Tiro Cruzado (Nélson Ângelo - Márcio Borges)
  11. Outras Mulheres (Joyce - Paulo César Pinheiro)
  12. Olhos de Fogo (Simone Guimarães - Cristina Saraiva) c/ Maurício Maestro

Produção: Cristina Saraiva
Repertório: Cristina Saraiva & Simone Guimarães
Direção musical e arranjos: Maurício Maestro

Este álbum foi a minha primeira introdução para o mundo musical de Simone Guimarães. A semelhança vocal com Elis Regina que Simone às vezes exibe foi o que me atraiu de início. Ao ver a capa e a conexão com a natureza, a minha curiosidade aumentou. Ao ouvir as faixas em Aguapé, eu pude então descobrir tudo mais que Simone Guimarães oferece na sua música e interpretações sinceras, simples e com muita alma. Com os seus dois primeiros lançamentos, Simone chamou a atenção de muita gente boa na música brasileira. Em Aguapé ela contou com as participações vocais de Zé Renato na faixa que dá título ao CD e ainda com Danilo Caymmi, Elba Ramalho, Ivan Lins e Maurício Maestro. Outros músicos presentes incluem Leandro Braga (piano), Adriano Giffoni (baixo), Luiz Brasil (violão) e Beto Cazes (percussão). Das doze músicas do álbum, Simone Guimarães e Cristina Saraiva assinam cinco das faixas e Simone ainda divide outra faixa com Juarez Machado. O balanço do repertório e arranjos é impecável.

"Aguapé" é uma canção especial. Existe uma melancolia no acordeón de João Carlos Coutinho que enaltece a música de Edmundo Souto e os versos de Paulinho Tapajós. A letra claramente traz marcas do mestre Tom Jobim ao falar de bem-te-vi, de sabiá, do jabuti, do guarani, do cajá, do açaí e tantas outras belezas naturais. A canção fala do "amor escondido" guardado em um ninho "lá do outro lado do arvoredo". A tranqüilidade desta canção é balsâmica e certamente vai mexer com todos que a escutam. As vozes de Simone Guimarães e Zé Renato se encaixam muito bem.

Bumba-meu-boiEm "Baião Barroco", Simone Guimarães volta ao folclore brasileiro falando do cavalo-marinho, que é o capitão do Bumba-Meu-Boi. A idéia desta canção, conta Simone, nasceu assim:

Quando ouvi o baião de Juarez, me veio à cabeça imagens de autos do folclore brasileiro, que traz sempre o antigo como inusitado. Também pensei em elementos da arquitetura barroca: figuras híbridas como leões com cabeça de águia, cavalos com perninhas de anjos, pássaros que se transformam em cobras etc.

Assim é que brota esta canção que fala de elementos fantásticos como um homem saindo de uma estrela ou mesmo um anjo brotando da boca de um cantor.

Em "No Tempo dos Quintais" Simone nos leva por uma viagem aos tempos antigos onde o cortês cavalheiro cedia o lugar para uma senhora no bonde, onde a simplicidade das casas com pomares se juntavam aos lampiões de gás onde namorados e namoradas compartilhavam as suas paixões. Simone diz que esta canção foi um marco em sua vida pois ela "é um dos retratos mais fiéis da história do Brasil". Era um tempo de inocência, um tempo sem medo chamado jamais, diz a letra de Paulinho Tapajós. O acompanhamento nesta canção fica apenas com o piano de Leandro Braga. Mais não é preciso! Em contraste com esta vida simples, ouvimos então "Pato Preto" retratando a vida sofrida do retirante nordestino que larga o sertão seco, a tristeza e a solidão para se aventurar em uma nova vida em São Paulo. Esta faixa também apareceu no Songbook Tom Jobim de 1996 (disco 4).

Simone GuimarãesNa faixa seguinte, "Cantos pra Despertar", Cristina Saraiva conta que ao escrever a letra pra esta canção, ela já tinha em mente as vozes de Simone e Elba Ramalho repartindo os vocais. Um outro dueto, desta vez com Ivan Lins, aparece em "Estrela Guia". A canção é um tributo a Milton Nascimento, e como Simone mesmo diz, é uma homenagem a aquele que foi a sua estrela guia. No final do arranjo, temos ainda a bela citação musical de "Morro Velho" (de Milton Nascimento). Outro tributo de Simone Guimarães está na faixa seguinte, "Hermanos". Aqui os elogiados são Ivan Lins, Romero Lubambo e César Camargo Mariano, que na letra de Cristina Saraiva são a flor carmim, o manancial, uma constelação. Estes três gigantes da música brasileira cobrem o "chão de cantos de amor... e de encantos".

Nas próximas duas canções, "Relento" e "Minha Terra", o tema da natureza serve para dar apoio a amores perdidos. Em "Relento" a natureza cresce junto com a cantora e juntas elas buscam entender a vida, "o além, o instante, o amigo do lado". No final, a desilusão do amor perdido é uma fogueira apagada, uma vida ao relento. Na outra canção, a terra é tudo. Nela uma vida foi construída e uma família criada só para no final se desmoronar quando um estranho aparece e avisa que a terra não mais pertence a este que a cultivou. A terra foi vendida. O contraste do princípio e do fim formam o círculo da vida:

Foi nesta terra que eu vivi a vida inteira
Que cravei minha bandeira, que plantei meu coração
No pé da serra levantei minha tapera
Trabalhei toda essa terra e cuidei da criação.
...
Por essa estrada feita de pedra cortante
De saudade, de instante
Vou levando o que sobrou:
Minha viola, meu facão, minha enxada
A mulher, a criançada e a fé no Criador.

"Tiro Cruzado" dispensa apresentação. Este arranjo de Maurício Maestro é muito dinâmico e com um apoio da percussão de Beto Cazes e solos de flauta do grande Franklin da Flauta. Como Simone mesmo diz, ela nunca pensa "em fazer um trabalho sem ouvir antes Nélson Ângelo". Ela incluiu músicas dele em seus trabalhos anteriores.

Antes de fechar este trabalho, temos um baião de Joyce com letra do fabuloso Paulo César Pinheiro, "Outras Mulheres". A canção é uma homenagem à força e liberdade feminina. Isto tudo é reforçado na toada à moda caipira em "Olhos de Fogo". Em dueto com Maurício Maestro, Simone canta sobre a paixão que se sente e não se sabe explicar: a paixão que nasce de um olhar forte que queima as noites frias e se mantém acesa a vida inteira.

Após Aguapé, Simone Guimarães participou do Songbook Chico Buarque em 1999 (disco 8) na faixa "Desencontro" (de Toquinho e Chico Buarque) junta com Hélio Delmiro ao violão. No final deste mesmo ano, foi a vez dela dar uma participação especial no lançamento natalino de Ivan Lins, Um Novo Tempo. Em dueto com Ivan Lins ela cantou a faixa "Ô de Casa", de sua autoria com Sérgio Natureza. Outra participação sua foi no excelente trabalho de Ione Papas Noel por Ione em 2000. Naquele álbum, Simone cantou junta com Ione a canção "Coração (Samba Anatômico)". A entrada da voz de Simone é de arrepiar!

MB E.L.