Simone Guimarães
Cirandeiro
Tiê TIECD002 (1997)
Tempo: 49'36"

 

Raízes Brasileiras

 

Resenha de
Outubro 2003

Cirandeiro
Faixas:
  1. Lamento Sertanejo (Forró do Dominguinhos) (Dominguinhos - Gilberto Gil)
  2. Brincadeira de Coroar (Simone Guimarães)
  3. Sina (Raimundo Fagner - Ricardo Bezerra - Patativa do Assaré)
  4. Maria Solidária (Milton Nascimento - Fernando Brant)
  5. Cirandeiro (Adaptação folclórica de Edu Lobo - Capinan)
  6. Laranjeiras (Simone Guimarães - Cristina Saraiva)
  7. Canoa, Canoa (Nelson Ângelo - Fernando Brant) c/ Paulo Jobim
  8. Festa da Piracema (Simone Guimarães - Virgínia Amaral)
  9. Cobra Coral (Álvaro Socci - Cristina Saraiva)
  10. Céu de Estio (Paulo Jobim - Danilo Caymmi - Ronaldo Bastos) c/ Paulo Jobim
  11. A Vida do Rio (Simone Guimarães - Virgínia Amaral)
  12. Canção para um Pianista (Simone Guimarães - Cristina Saraiva)
  13. Andorinha (Vinheta) (Simone Guimarães)
  14. Estrela do Meu Bem Querer (Simone Guimarães - Cristina Saraiva)

Produção musical: Maurício Maestro
Direção de produção: Cristina Saraiva
Repertório: Cristina Saraiva & Simone Guimarães
Arranjos: Simone Guimarães (2), Maurício Maestro, Paulo Jobim (10)

Para o seu segundo lançamento, Simone Guimarães conta com a presença de um time de músicos que inclui, além de Paulo Jobim e Maurício Maestro, as presenças de Leandro Braga (piano), Adriano Giffoni (baixo) e Luiz Brasil (violão e guitarra) entre outros.

Ligada às raízes da música e cultura brasileiras, Simone foi buscar no tema folclórico das cirandas o título deste seu trabalho. A ciranda é uma dança de roda originária de Portugal e que teve no Brasil grande receptividade. Quer em São Paulo (conhecida como sereninha), Minas Gerais (lá com o nome de serandina) ou em Goiás (aí conhecida como sarandi), a ciranda se tornou mais popular na zona da mata e litoral de Pernambuco. O cirandeiro é o adulto que canta os versos poético-musicais enquanto casais dançam ao som de violas, rabeca, ganzá e bombo (este o instrumento imprescindível na ciranda). Em um balanço contagiante cheio de ondulações, a ciranda imita o movimento do mar.

Abrindo o repertório de Cirandeiro, o belíssimo e comovente "Lamento Sertanejo" registra a proposta de Simone Guimarães a unir o sertão com a cidade grande. O solo de João Carlos Coutinho no acordeón reflete a dor e melancolia do sertanejo com muita sensibilidade. Com "Brincadeira de Coroar", Simone se utiliza de uma brincadeira infantil com gosto folclórico onde ela conversa com os deuses do vento, luz e trechos pedindo a eles para protegerem e coroar os seus fiéis. "Sina" é uma toada singela onde o amor é o centro e maior expoente no relacionamento humano. Não existe dinheiro ou diploma que possam tomar o lugar do amor. A vida simples do vaqueiro é cantada nesta bela canção com letra do grande poeta popular Patativa do Assaré. Ainda ligada ao povo e à terra, passamos então para "Maria Solidária". Para Simone, esta canção traz memórias de sua infância e das muitas Marias que ela conheceu e que todos nós conhecemos. E que melhor recordação de infância do que as brincadeiras de roda que vivemos? Assim é "Cirandeiro", onde o brilho da pedra de um anel brilha mais do que o sol, que o luar e as estrelas. A interpretação de Simone é deliciosa.

Simone com violãoAs próximas três faixas retomam temas que Simone havia gravado em Piracema, mas com arranjos sutilmente diferentes. Em "Laranjeiras", que naquele álbum foi apenas instrumental, aqui recebe uma letra de Cristina Saraiva. Nas próprias palavras dela, "é a perplexidade diante da vida, da beleza, do futuro incerto". Em "Canoa, Canoa" o tema claramente se enquadra nas idéias centrais que abundam nas músicas de Simone. "Canoa, Canoa" trata da vida dos índios Avacanoeiros no rio Araguaia. Estes índios continuam a luta pela vida mesmo em face da extinção. Eles saiem para pescar no meio da alta noite. Em contraste com a luta pela vida destes índios, temos então a luta dos peixes pela própria sobrevivência em "Festa da Piracema". "Cobra Coral" então chama a atenção para falsas promessas de amor e mostra o vendaval que pode desencadear por mentiras de amor. Novamente contrastando as forças da natureza, ouvimos "Céu de Estio" (anteriormente gravada em Piracema). Paulo Jobim mais uma vez canta em dueto com Simone Guimarães. Outra repetição com arranjo semelhante ao anterior, mas desta vez não em dueto, encontramos "A Vida do Rio". Esta canção, Simone explica, "é feita para o pescador e trovador Zé Chato, lá de Santa Rosa de Viterbo, que viveu 35 anos na beira do rio e conhece o Caipora, o Caboclo d'Água e mula-sem-cabeça" -- todos personagens conhecidos do folclore brasileiro. O solo de violão de Fernando Gama tem um sabor flamenco e enaltece ainda mais esta bela canção.

Antes de encerrar este belo trabalho, Simone e Cristina nos presenteiam com uma homenagem a Leandro Braga em "Canção para um Pianista". Os versos são de uma beleza rara e um tributo merecido a este grande pianista e arranjador:

As mãos doces do amor
São macias de tocar
E as mãos de um escritor
Nos levam pra outro lugar
...
Tuas mãos são um mistério
Que ninguém pode explicar
Como o perfume da rosa
Como os segredos do mar.

A música de Simone soa como uma cantiga de ninar onde o acompanhamento em solo de Leandro Braga se une a um vocal comovente. Poesia e música formam o par ideal aqui.

As duas últimas faixas completam o quadro desta trajetória pelo folclore, pelo sertão e vastidão da paisagem natural brasileira. Em "Andorinha", Simone simplesmente canta estes versos à capela :

Se o mundo dá mil voltas
Andorinha também dá
Em cima da caviúna
Quase que eu pego uma
Foi dormir no cepo da aroeira, aiá
Que maior riqueza neste mundo há?

E encerrando Cirandeiro, "Estrela do Meu Bem Querer" fala do vento, do raio de luar, da luz no olhar da amada que partiu. Cruzando mar e sertão, fica somente a dúvida no coração se este amor voltará para ficar. Para o ouvinte, entretanto, os versos de Cristina Saraiva nesta toada de Simone Guimarães são mais um bálsamo numa noite coroada de boa música.

Cirandeiro recebeu duas indicações para o Prêmio Sharp em 1997: melhor cantora e melhor arranjo.

MB E.L.