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7, 2002 |
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Para o seu segundo lançamento, Simone Guimarães conta com a presença de um time de músicos que inclui, além de Paulo Jobim e Maurício Maestro, as presenças de Leandro Braga (piano), Adriano Giffoni (baixo) e Luiz Brasil (violão e guitarra) entre outros. Ligada às raízes da música e cultura brasileiras, Simone foi buscar no tema folclórico das cirandas o título deste seu trabalho. A ciranda é uma dança de roda originária de Portugal e que teve no Brasil grande receptividade. Quer em São Paulo (conhecida como sereninha), Minas Gerais (lá com o nome de serandina) ou em Goiás (aí conhecida como sarandi), a ciranda se tornou mais popular na zona da mata e litoral de Pernambuco. O cirandeiro é o adulto que canta os versos poético-musicais enquanto casais dançam ao som de violas, rabeca, ganzá e bombo (este o instrumento imprescindível na ciranda). Em um balanço contagiante cheio de ondulações, a ciranda imita o movimento do mar. Abrindo o repertório de Cirandeiro, o belíssimo
e comovente
"Lamento Sertanejo" registra a proposta de Simone Guimarães
a unir o sertão com a cidade grande. O solo de João Carlos
Coutinho no acordeón reflete a dor e melancolia do sertanejo
com muita sensibilidade. Com "Brincadeira de Coroar", Simone
se utiliza de uma brincadeira infantil com gosto folclórico
onde ela conversa com os deuses do vento, luz e trechos pedindo a eles
para protegerem e coroar os seus fiéis. "Sina" é uma
toada singela onde o amor
é o centro e maior expoente no relacionamento humano. Não
existe dinheiro ou diploma que possam tomar o lugar do amor. A vida
simples do vaqueiro é
cantada nesta bela canção com letra do grande poeta popular
Patativa do Assaré. Ainda ligada ao povo e à terra, passamos
então para "Maria Solidária". Para Simone,
esta canção traz memórias de sua infância
e das muitas Marias que ela conheceu e que todos nós conhecemos.
E que melhor recordação de infância do que as brincadeiras
de roda que vivemos? As próximas três faixas retomam temas que Simone havia gravado em Piracema, mas com arranjos sutilmente diferentes. Em "Laranjeiras", que naquele álbum foi apenas instrumental, aqui recebe uma letra de Cristina Saraiva. Nas próprias palavras dela, "é a perplexidade diante da vida, da beleza, do futuro incerto". Em "Canoa, Canoa" o tema claramente se enquadra nas idéias centrais que abundam nas músicas de Simone. "Canoa, Canoa" trata da vida dos índios Avacanoeiros no rio Araguaia. Estes índios continuam a luta pela vida mesmo em face da extinção. Eles saiem para pescar no meio da alta noite. Em contraste com a luta pela vida destes índios, temos então a luta dos peixes pela própria sobrevivência em "Festa da Piracema". "Cobra Coral" então chama a atenção para falsas promessas de amor e mostra o vendaval que pode desencadear por mentiras de amor. Novamente contrastando as forças da natureza, ouvimos "Céu de Estio" (anteriormente gravada em Piracema). Paulo Jobim mais uma vez canta em dueto com Simone Guimarães. Outra repetição com arranjo semelhante ao anterior, mas desta vez não em dueto, encontramos "A Vida do Rio". Esta canção, Simone explica, "é feita para o pescador e trovador Zé Chato, lá de Santa Rosa de Viterbo, que viveu 35 anos na beira do rio e conhece o Caipora, o Caboclo d'Água e mula-sem-cabeça" -- todos personagens conhecidos do folclore brasileiro. O solo de violão de Fernando Gama tem um sabor flamenco e enaltece ainda mais esta bela canção. Antes de encerrar este belo trabalho, Simone e Cristina nos presenteiam com uma homenagem a Leandro Braga em "Canção para um Pianista". Os versos são de uma beleza rara e um tributo merecido a este grande pianista e arranjador:
A música de Simone soa como uma cantiga de ninar onde o acompanhamento em solo de Leandro Braga se une a um vocal comovente. Poesia e música formam o par ideal aqui. As duas últimas faixas completam o quadro desta trajetória pelo folclore, pelo sertão e vastidão da paisagem natural brasileira. Em "Andorinha", Simone simplesmente canta estes versos à capela :
E encerrando Cirandeiro, "Estrela do Meu Bem Querer" fala do vento, do raio de luar, da luz no olhar da amada que partiu. Cruzando mar e sertão, fica somente a dúvida no coração se este amor voltará para ficar. Para o ouvinte, entretanto, os versos de Cristina Saraiva nesta toada de Simone Guimarães são mais um bálsamo numa noite coroada de boa música. Cirandeiro recebeu duas indicações para o Prêmio Sharp em 1997: melhor cantora e melhor arranjo. |