Simone Guimarães
Piracema
Independente 199.000.807 (1996)
Re-edição: CID CD 00658/3 (2003)
Tempo: 30'50"

 

Começa uma Nova Trajetória

 

Resenha de
Outubro 2003

Piracema
Faixas:
  1. Tamanduá (Olmir Stocker "Alemão")
  2. Céu de Estio (Paulo Jobim - Danilo Caymmi - Ronaldo Bastos) c/ Paulo Jobim
  3. Canoa, Canoa (Nelson Ângelo - Fernando Brant) c/ Paulo Jobim
  4. Rocinha (Mário Martinez)
  5. Festa da Piracema (Simone Guimarães - Virgínia Amaral)
  6. Piracema (João Pacífico - José Márcio Castro Alves) c/ João Pacífico e José Márcio Castro Alves
  7. Lambari (Instrumental) (Mário Feres)
  8. A Vida do Rio (Simone Guimarães - Virgínia Amaral) c/ Celso Sim
  9. Laranjeiras (Instrumental) (Simone Guimarães - Cristina Saraiva) c/ José Márcio Castro Alves
  10. Felicidade (José Márcio Castro Alves) c/ José Márcio Castro Alves

Direção musical : Mário Feres
Produção artística: José Márcio Castro Alves
Arranjos: Mário Feres & Alexandre Lima (cordas), Paulo Jobim (2, 3), Olmir Stocker (1), Simone Guimarães (4)

Nascida a 12 de julho de 1966 no interior de São Paulo na cidade de Santa Rosa de Viterbo, Simone Vagnini Guimarães é mais que uma simples cantora. Ela é também compositora e sua música abrange toada, samba-canção, baião e balada. Suas influências vão de Heitor Villa-Lobos a Antônio Carlos Jobim, mas talvez a proximidade de sua cidade natal com o estado de Minas Gerais possa explicar porque algumas de suas composições nos fazem pensar mais no estilo musical do Clube da Esquina. Existe um certo toque de carro-de-boi e coisas mineiras na sua música. Na verdade, entretanto, a influência mineira na música de Simone vem mesmo de Milton Nascimento. Simone foi aluna na Escola Livre de Música de Milton Nascimento em Belo Horizonte, onde estudou sob a tutela de Juarez Moreira. Sua voz é de uma beleza rara e com um timbre que muitas vezes o fará pensar em Elis Regina. Lembro, por sinal, que foi exatamente esta coincidência vocal que primeiro me despertou a vontade para buscar mais músicas e conhecer melhor a obra de Simone Guimarães. Para mim, a primeira canção dela que ouvi foi o dueto com Zé Renato em "Aguapé", faixa título do seu álbum de 1998.

Piracema partiu da trilha sonora que Simone Guimarães e Paulo Jobim escreveram para o documentário O Canto da Piracema. O termo piracema vem do tupi-guarani e se aplica ao fenômeno da natureza onde os peixes nadam contra a correnteza dos rios quando vão de encontro às nascentes na época da desova. O documentário feito pela EPTV (Emissoras Pioneiras de Televisão), afiliada à Rede Globo, recebeu o prêmio Líbero Badaró na categoria Telejornalismo em 1992. Foi um trabalho científico, artístico e profissional de repercussão marcante. A partir da trilha original, Simone Guimarães gravou então o CD Piracema em 1996. Difícil de ser encontrado por se tratar de um trabalho independente, o CD foi finalmente relançado em 2003.

Neste primeiro trabalho Simone apresenta claramente a sua proposta como nova estrela no cenário da música brasileira. Com composições originais dela própria assim como de outros autores, Piracema esboça a preocupação da cantora e compositora com o ambiente, a natureza e os animais, fatos que estão estampadas em muito do que escreve e canta. Tomemos, por exemplo, a primeira faixa, "Tamanduá", canção de Olmir Stocker "Alemão", membro do famoso grupo Brazilian Octopus, cujo único álbum é raridade entre colecionadores. A guerra e destruição cantadas neste samba se originam nas mãos do homem ao construir represas, espalhar inseticidas, matar animais e ir contra a natureza. Em meio a todas estas atrocidades, a letra diz:

Já faz tempo e ele não sabia
Eu pensei que ele aprenderia
Já passou tanto tempo
E parece que ele não aprendeu
Ele tem cara de santo mas é um fariseu.

A fluidez desta melodia é belíssima e se encaixa nos versos como uma aquarela de sons e imagens. O arranjo e violão de Almir dão um toque extra. Veja este outro trecho descrevendo o sertão com matas, rios e cascatas antes da destruição humana:

E a água cristalina escorrendo na cascata
Se embrenhando pela mata
Em seu curso original
Vem o homem e constrói uma represa
Ele contraria a natureza
E ainda diz que é racional.

Este belo tema da natureza prossegue em "Céu de Estio", com a participação especial de Paulo Jobim. O casamento da voz quase-rouca de Paulo à voz semi-cristalina de Simone é resplandecente e ilumina os versos que falam de rio, chuva, casa de barro e montes. A introdução desta canção faz lembrar "Águas de Março", mostrando a feliz influência do pai no filho (Paulo fez o arranjo aqui). AquarelaA temática de rio e sertão prosseguem ainda nas faixas seguintes, "Canoa, Canoa" e "Rocinha". Esta última, sem letra, é um lamento com vozes se sobrepondo camada por camada. Simone faz todos os vocais e ainda toca os violões nesta faixa.

A determinação destes versos oferece um belo contraste na introdução lenta cantada por José Márcio no dueto. A canção cresce na busca otimista até os versos finais. A conclusão nesta canção é decisiva na voz de Simone. Ela canta que ao encontrar a felicidade, ela destruirá o endereço, assim fazendo com que a felicidade paire na eternidade.

Ainda em 1996, Simone Guimarães participou do Songbook Tom Jobim (disco 4) no dueto com Paulo Jobim em "Pato Preto". Também em 1996, junto com Olmir Stoker "Alemão" e Zeca Ribeiro, Simone gravou o disco Cordas Versos Cordas, que permanece inédito.

A primeira canção escrita por Simone então aparece em "Festa da Piracema". Em um estilo caipira com referência direta a cantadores, ela canta sobre o problema de se um dia não mais houver peixes no rio. Já na canção seguinte, a que dá título a este álbum, os autores João Pacífico e José Márcio Castro Alves apresentam o tema central da piracema junto com Simone. Em forma de interlúdio, temos o tema instrumental "Lambari", um forró onde o piano, não o acordeón, carrega a melodia. A próxima faixa é uma ode à vida que um rio tem. A melodia de "A Vida do Rio" é leve, suave e serena como um passeio de canoa por águas tranquilas. Outra faixa apenas com vocais de Simone e José Márcio, "Laranjeiras", serve de preâmbulo para o desfecho deste álbum com "Felicidade". As viagens pelas matas e rios cantadas em Piracema aqui se resumem na busca da felicidade:

Felicidade eu te busco até nos ares
Quatro mares, mil lugares
Vinte léguas sai de graça, viu
...
E com saudade ela esconde um abstrato
Mas comigo não tem trato
Vou te achar, felicidade.

MB E.L.