É interessante que a primeira vez que ouvi a trilha de O
Grande Circo Místico eu gostei muito, mas não sabia
exatamente o por quê. Claro, com um lista de artistas que incluía
os autores Edu Lobo e Chico Buarque, passando por Mílton Nascimento,
Simone e Zizi Possi, não era difícil não gostar
do álbum. Mesmo assim, o CD não teve o impacto que São
Bonitas as Canções provocou em mim. Recentemente
eu ouvia uma entrevista na cadeia de rádio pública norte-americana,
NPR, com o grande compositor Stephen Sondheim. Foi então que
tudo se encaixou. São Bonitas as Canções
poderia simplesmente ter o subtítulo Broadway brasileira. É
o toque magistral de Sondheim com o jeitinho brasileiro. Mas é
tudo muito brasileiro aqui.
Marianna Leporace (voz) e Sheila Zagury (piano) não tiveram
receio de recriar algumas das canções dos álbuns
teatrais O Grande Circo Místico (1982), O Corsário
do Rei (1985) e Dança da Meia-Lua (1980) - todos
escritos por Edu Lobo e Chico Buarque. De quebra, ainda temos duas
canções que vieram de Corrupião (de Edu
Lobo, 1993) - "Nego Maluco" - e do Álbum de Teatro (1997)
de Chico e Edu - "Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa". O que faz esta
coleção ainda melhor está no fato das apresentações
serem magníficas e formarem um trabalho homogêneo sem
cair no comum e banal. Claro, não foi um trabalho fácil
regravar "Beatriz" e "O Circo Místico", que bem conhecemos
nas vozes de Mílton Nascimento e Zizi Possi, respectivamente.
Marianna parece ter a abilidade natural de cantar canções
de teatro sem ser dramática. Ela apresenta as músicas
com rara beleza, sensibilidade e a dosagem certa de emoção.
Com o piano de Sheila, tudo fecha o grande círculo. Sheila
é como a extensão da bela voz de Marianna e, juntas,
elas formam um instrumento belíssimo - às vezes em jazz
e blues ("Bancarrota Blues"), outras vezes sublime ("O Circo Místico",
"Beatriz", "Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa"), ou mesmo num momento
triste ("Meia-Noite") e ainda com muito samba ("Nego Maluco"). Em
alguma das faixas Marianna e Sheila trazem os músicos Cacá
Colon (bateria), Daniela Spielman (sax), Fernando Leporace (baixo),
José Staneck (gaita) e Mila Schiavo (percussão). Escolher
apenas uma faixa como "a melhor" seria uma afronta a estas artistas.
Apenas como exemplos, basta citar as seguintes. "Na Carreira" começa
com tal força que o ouvinte logo imagina o que mais terá
pela frente. Com o ritmo rápido, a voz de Marianna brinca com
total segurança e o piano de Sheila se mantém com todo
o vigor. Em "O Circo Místico", somos agraciados com a leitura
de um pequeno texto escrito por Luiz Fernando Vianna. É a única
faixa com texto unido à música. O resultado não
poderia ter sido melhor. É comovente e a gente fica pensando
como teria sido a apresentação ao vivo com todos os
textos. Chico Buarque aparece no dueto em "Tororó" e Edu Lobo
entra na belíssima "Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa". Ouvindo
o Edu e Marianna em dueto é como estar em um sonho acordado.
"Valsa Brasileira" é solenemente bela (inclusive a citação
de "Coração Que Sente" de Ernesto Nazareth) enquanto
que o "Tango de Nancy" traz o fogo das paixões latinas.
Sim, são bonitas as canções, mas sem estas apresentações
extraordinárias de Marianna Leporace e Sheila Zagury, as canções
não seriam as mesmas. O CD é um belo trabalho com uma
apresentação estelar.

Egídio Leitão