Do mesmo modo que os nomes de João Gilberto e Tom Jobim deixaram
suas marcas permanentes na bossa nova ou Caetano Veloso e Gilberto
Gil foram duas das forças do movimento tropicalista, antes
deles, Alfredo da Rocha Viana Jr. (mais conhecido como Pixinguinha)
fez-se presente na música brasileira como o mestre do choro.
O jornalista e musicólogo Ary Vasconcelos certa vez foi abordado
sobre a vastidão da música brasileira. Ele disse que
15 volumes não dariam para cobrir todo o assunto. Entretanto,
se ele tivesse que usar apenas uma palavra para definir a música
brasileira, esta palavra seria Pixinguinha.
Embora Pixinguinha mesmo tenha dito no seu depoimento ao Museu da
Imagem e do Som que ele havia nascido no Rio de Janeiro a 23 de abril
de 1898, o ano correto é de fato 1897. Esta descoberta foi
o resultado da pesquisa feita por Jacob do Bandolim. Ele descobriu
a certidão de nascimento de Pixinguinha na Igreja de Santana,
onde Pixinguinha havia sido batisado. Quanto à origem do nome
Pixinguinha, existem duas versões. Uma das avós de Pixinguinha
era africana e o chamava de Pizinguim, que no seu dialeto africano
significava "criança boa". Pixinguinha também
disse que quando criança ele teve varíola (também
chamada de bexiga). Ele era então chamado de bexiguinha e,
eventualmente, tornou-se Pexinguinha e Pixinguinha.
No outro hemisfério e dois anos mais tarde, em abril de 1899,
outro grande músico havia nascido. Também com descendência
africana Edward Kennedy Ellington, mais conhecido como Duke Ellington,
ajudou na formação musical de outra nação.
Duke Ellington e Pixinguinha nunca se encontraram na vida real. Entretanto,
os seus legados musicais passaram pelo teste do tempo e através
das idéias de dois artistas renomados, Pixinguinha e Duke Ellington
finalmente se encontram.
Se eles pudessem ter composto música juntos, o provável
resultado de tal encontro teria sido Mood Ingênuo: Pixinguinha
Meets Duke Ellington, uma coleção ímpar da
música destes dois compositores apresentadas por dois dos mais
notáveis artistas de jazz do Brasil e dos Estados Unidos: Paulo
Moura (saxofone/clarinete) e Cliff Korman (piano). Paulo Moura é
uma figura legendária no cenário musical brasileiro. Arranjador,
compositor e instrumentalista, ele tocou com Ary Barroso, Sérgio
Mendes, Raphael Rabello e muitos outros. Em grande parte ele é
responsável pelo renascimento do choro no Brasil. Paulo recebeu
o prêmio Sharp de melhor instrumentalista em 1992. Em 1997 o seu
lançamento Pixinguinha (lançado no Brasil pela
Velas e no resto do mundo pela Blue Jackel) venceu outro prêmio
Sharp, desta vez como o melhor CD instrumental e o melhor grupo instrumental
(o álbum foi gravado com o grupo Os Batutas, uma versão
contemporânea do grupo original de Pixinguinha). O pianista Cliff
Korman, que estudou com Roland Hanna e Kenny Barron, não é
novato na música brasileira. Dentre os vários artistas
com quem trabalhou no mundo inteiro, ele inclui os nomes de Toninho
Horta e Leny Andrade. Ele também já deu várias
oficinas sobre jazz e música brasileira na Universidade Federal
de Minas Gerais, Escola de Música de Brasília e também
o City College of New York e Drummers Collective in New York City. Talvez
a melhor introdução para Cliff Korman seja mesmo nas próprias
palavras de Paulo Moura. Paulo disse:
Conversando com Cliff Korman, ele me falou sobre Mood Ingênuo
e a música brasileira.
EL: Como surgiu a idéia de Mood Ingênuo?
CK: Nosso projeto começou quando o Paulo me convidou para
passar uns dias em Paraty, um desses convites do tipo trabalho e férias.
Havia um pequeno teatro e nós íamos nos apresentar lá.
Claro que eu estava feliz de poder ter a oportunidade de ver outra
parte muito bonita do Brasil e também de ter a chance de tocarmos
juntos finalmente. Começamos a juntar o material pro show e
o projeto começou a tomar forma e rapidamente progrediu de
idéias indviduais e possibilidades através de ensaios
até a realização do que podíamos fazer
juntos. Paulo mencionou seu sonho do encontro de Pixinguinha com Duke,
de quem eu tinha muito material comigo. Como o som do Paulo se enquadra
muito bem com este repertório, eu já tinha uma certa
intuição de que a gente ía trabalhar com este
material. Modelamos a idéia e acrescentamos outras músicas
também. Quanto ao nome do disco, este veio do artista comix
Art Spiegelman, que desenhou a capa. Ele ficou pasmo com a mistura
dos sons. Eu acredito que ele refletiu maravilhosamente o conceito
musical na sua forma visual.
EL: E sobre a logística do encontro propriamente dito e
o lançamento do álbum? Foi difícil escolher um
lugar?
CK: A logística de manter o projeto vivo foi complicada já
que vivemos em dois continentes. Comunicávamos por fax e telefone.
Às vezes eu mandava uma partitura com uma nota do tipo "pensei
em você com esta melodia... O que você acha?" Quando
tínhamos uma apresentação juntos, sempre chegávamos
com dois ou três dias de antecedência a fim de trabalharmos
um pouco e ver como nossas experiências haviam mudado as coisas.
Sempre descobriamos novos detalhes e procurávamos incorporá-los
nas nossas apresentações. O festival de Cantar da Costa
teve a idéia de gravar o show para a rádio italiana.
Quando ouvimos a fita, tivemos a idéia de fazer o álbum
e procurar uma gravadora para lançá-lo.
EL: Como foram criados os arranjos? Você mencionou antes
que às vezes mandava apenas uns esboços. Houve muita
improvisação?
CK: Os arranjos foram criados assim. Ou o Paulo ou eu trazíamos
quase um produto terminado ou então a gente trabalhava junto.
Sempre havia margem para improvisação. Eu acho isto
uma consequência natural dos nossos estilos e forma de tocar
e também de como combinamos os nossos sons juntos.
EL: Quem você diria foram suas influências na música
brasileira? Refiro-me aos artitas brasileiros que de certa forma marcaram
ou influenciaram a sua formação na nossa música.
CK: Influências? No princípio foram Tom [Jobim] e João
[Gilberto]. Então depois veio (por intermédio de Native
Dancer, do Wayne Shorter) o Milton [Nascimento], Toninho Horta
e os outros mineiros; teve também Luis Eça, João
Donato, Cesar Camargo Mariano, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti.
Mais recentemente tive a oportunidade de ver o trabalho de Ernesto
Nazareth. Por meio do Paulo, descobri, entre vários outros,
K-Ximbinho e Radamés Gnattali e nesta viagem, graças
a muitos músicos que estou conhecendo, pude ouvir muitas gravações
destes compositores. O problema com estas respostas é que a
gente acaba deixando alguém de fora.
EL: É verdade. Entretanto, isso nos dá uma certa
compreensão da sua formação em música
brasileira. E sobre essa bolsa da Fulbright no Rio? Parece ser uma
bolsa caída do céu.
CK: A bolsa da Fulbright (pesquisa e lecionamento) é o ápice
de muitos anos seguindo esta trilha pessoal e profissional. É
um destes caminhos que na verdade escolhem você. Meu envolvimento
com a música brasileira vem dos meados dos anos 80. Estudei
e viajei muito no Brasil para assimilar o jeito e entender o método
dos compositores e instrumentalistas brasileiros e também toquei
profissionalmente. Ao mesmo tempo eu mantive meu interesse na prática
de jazz: sua tradição, linguagem e oportunidade de expressão
individual. Recebi meu mestrado do City College of New York, um curso
que combina muitos elementos de teoria, análise e pesquisa
com ênfase em apresentação. O treinamento recebido
foi de muito valor. A bolsa tem dois ângulos: ensino jazz no
piano, improvisação e trabalho com pequenos grupos na
Escola de Música de Brasília e Universidade do Rio de
Janeiro e também estudo as semelhanças e diferenças
no desenvolvimento do choro e do jazz. É o momento certo para
estudar o choro. Há novos chorões que tem muito respeito
pela tradição, tem trabalhado duro para assimilá-lo
e buscam novos pontos de vista nos seus trabalhos. É muito
legal para mim. Tenho visto no Rio o que encontrei em Nova Iorque:
uma geração de novos músicos que são um
prazer de se ouvir e também tocar com eles.
EL: Realmente é uma oportunidade fascinante. E sobre os
seus projetos no futuro? Depois deste festival em Cantar da Costa,
Mood Ingênuo e o Rio, o que está despontando no
seu horizonte?
CK: O Paulo e eu estivemos em Cantar da Costa e também no
Lincoln Center numa formação de quinteto apresentando
um projeto de jazz e gafieira. No momento estamos ouvindo as gravações
e esperamos em breve lançar um novo disco. [Nota: o disco saiu
em 2001 com o título de Gafieira Dance Brasil.] Além
dos nossos próprios trabalhos, tenho umas músicas e
arranjos comigo aqui no Rio e estou pensando em gravar algumas faixas
antes de sair daqui. Só em pensar em sair daqui me deixa com
saudades...
EL: Bom, isso é que é saudades mesmo. Para nós,
seus ouvintes, o lado bom é que teremos mais coisas boas como
Mood Ingênuo. Muito obrigado por este papo, Cliff.