Em diversas discussões que tenho com outros aficionados da música
brasileira eu sempre gosto de enfatisar que a nossa música vai muito
mais além da melodia, instrumentação e ritmo. Temos aquele famoso
jeitinho brasileiro que capta qualquer música e a faz distintamente
brasileira. Não posso também esquecer os versos. Sim, a letra na
música brasileira é tão importante quanto tudo mais na canção. Veja,
por exemplo, Cantos da Palavra, um lançamento multiprismático
indepedente que faz da palavra o seu elemento mais forte, profundo
e com uma variedade de significados.
Cantos da Palavra é o esmerado trabalho de Marcelo
Sandmann e Benito Rodriguez. Contrário do que seria esperado,
Marcelo e Benito não
são músicos profissionais. Quero dizer, eles não
fazem da música
a sua profissão. Eles são professores de literatura
na Universidade Federal do Paraná. Entretanto, a partir do
momento em que você
começa a ouvir este lançamento, você vai ficar
convencido da proposta muito séria destes dois artistas. As
palavras, como o próprio título
do CD chama a atenção, são o foco do projeto.
Mesmo assim, não podemos
deixar de louvar a bela voz e interpretação de Silvia
Contursi para estas canções. Ela adiciona uma rara
beleza e um toque que vem de sua alma para cada faixa. O resultado
desta combinação de letra e
voz é uma fonte de criatividade na música popular brasileira.
Não
é de se surpreender que Tárik de Souza escreveu no Jornal
do Brasil que Cantos é um lançamento
que injeta sutilezas rítmicas, melódicas e harmoniosas.
A música é inovativa e vibrante.
As letras são fortes e tocam a fundo.
Paulo Brandão, do grupo Aquarela Carioca, fez os arranjos
e produziu as 14 faixas. Além de Marcelo, Benito e Silvia, temos
ainda vários outros músicos intengrando este grande trabalho. Dentre
estes, cito Grace
Torres, Sidon Silva, Antonio Saraiva e também os nomes mais conhecidos
para o público em geral como é o caso de Paulo Malaguti (do Arranco). Cantos
da Palavra é samba, samba-funk (usa até samplers), frevo, pop,
hip-hop e muito mais. Bem eclético e ao mesmo tempo homogêneo.
A primeira faixa, "Cisco", abre o disco com uma aliteração nos primeiros
versos em conjunção com ritmos fortes e pulsantes. Este
efeito é apoiado pelo acompanhamento do baixo. As palavras por si
próprias poderiam ser música até mesmo sem notas. Em outra faixa,
"Samba Danado", encontramos uma referência direta a Dorival Caymmi
com os versos "quem não
gosta de samba, bom sujeito não é". Fechando este círculo
entre o novo e o tradicional, a letra ainda nos leva a um canibalismo
literário traçando paralelos com a proposta tropicalista, onde a
incorporação de elementos estrangeiros na música brasileira se tornaram
mais evidentes. Aqui os elementos tradicionais são convertidos por
meio de samplers em um arranjo impressionante!
Outra faixa estonteante é "www.infolia.com.pc", onde a melhor classificação
poderia ser a de um frevo cibernético. O ritmo é inebriante como
o frevo tradicional, mas as palavras estão anos-luz a frente. É precisamente
um frevo no mais tradicional estilo de carnaval, mas com um acompanhamento
eletrônica e muito percussivo. Os versos, claro, falam de terminologia
cibernética.
Finalmente, na faixa que dá título a este lançamento encontramos
um samba totalmente acústico em homenagem aos grandes nomes da música
brasileira: Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Cartola, Ary Barros, Nelson
Cavaquinho, Chiquinha Gonzaga, Carlos Lyra chegando até o tempo presente.
Aleem de um história musical, este samba é muito animado e cheio
de suíngue.
Cantos da Palavra expande o universo musical brasileiro muito
além do eixo Rio-São Paulo. A música é mais do que simples notas
e versos. Cada vez que se ouve o CD, um novo significado emerge.
Novo, tradicional, eletrônico, acústico, brasileiro, universal -- Cantos
da Palavra é tudo isto.

Egídio Leitão
Uma versão em inglês desta resenha apareceu em Luna
Kafé,
25/9/99.