Terceiro volume do songbook de João Bosco que ganhei no
Natal e só hoje
estou terminando de ouvir. Chegou a um ponto que me pegou "na veia" e
tenho que repartir. Ou buscar eco, alguém que tenha sentido da mesma
forma que eu, desbragadamente. Talvez cause espanto ou incomode essa minha maneira
de sentir. Quiçá alguns nem acreditem. Exagero. Sensibilidade
excessiva, sinal de que engatinho na evolução espiritual. Mas é assim,
goste eu ou não, incomode aos outros, enfim, me recolho, "me requiebra
el alma" mas não tem remédio... De novo me assalta esse ladrão
da minha sanidade e preciso saber se alguém sorveu com a mesma delícia
desse vinho bosquiano.
Qual a finalidade
da Arte senão encontrar eco? O que buscamos todos senão ressonâncias,
almas que por breves instantes se misturem a nossa, enrodilhadas ao toque da
beleza que nos legou um poema, um quadro, uma canção, uma voz?...
Todos buscamos o eco de nós mesmos. Tudo que nos motiva é, em
suma, achar um espelho, o fundo do poço onde ressoe a nossa voz... E
que ela reverbere e retorne maviosa... Pieguice. Exaltação além
do suportável?... Tudo isso
me define e é nesses momentos que me encontro ou me perco. E sempre
a necessidade de saber se outros transitaram pela mesma vereda. Afinal, o que
fazemos listas afora, digitando febrilmente, afagando com os dedos, brigando,
mostrando um pouco de nós? Ou ocultando, apenas pra escutar o abençoado
eco?...
Escuto e penso
que alguém talvez tenha sentido exatamente como eu... E a caneta falha,
como sempre ocorre quando quero escrever algo assim, algo que vem rasgando
como "a
angústia de um bolero", numa folha qualquer (eu desenho um sol
amarelo...), e as mãos suam... Não tem outra caneta por aqui?
Cadê a bic
que esta não presta? Onde vou achar uma p.... de uma bic? Uma bic
ou o momento se esvai! Tava lá no criado-mudo. O desgraçado
nada disse, alheio a minha sofreguidão, frio diante do meu ímpeto
febril... Pudera, é mudo,
coitado...
Repito o disco que agora já nem sei mais que diga. Queria
falar sobre a trilogia do João Bosco, o tal songbook, último
trabalho do Almir Chediak, "o último, ultimíssimo,
the last", como diria
o Edgar Augusto na Feira do Som. E sigo escutando sem querer levantar
pra nada mais, nem pra acender a luz; os olhos me doem, as sombras
da noite caem... mas que sombra? "Ainda é cedo, amor"!
O por-do-sol se pôs
tão apressado, antes mesmo do sol deitar, nos últimos dourados
e violáceos estertores bem no colo da baía do Guajará.
E quem não gostaria de lá deitar-se, sabendo que pode voltar "do
fundo do oceano que dá pra lá de Babá pra cá de
Ali"?...
até eu, se fosse o sol. Nuvens soturnas ameaçam a sexta-feira.
Pouco se me dá, não vou sair, por mim escuto João
Bosco até amanhã...
O songbook
traz esmeros tais, surpresas irreais, mentiras musicais, no sentido
de não
se acreditar que seria possível uma interpretação
nova que não deixasse a dever ao João Bosco, pra mim
definitivo em tudo que ele grava. Quer dizer, com o perdão da
Elis Regina que lhe roubou sem pejo tantas canções...
menos "Corsário",
que essa, nem ela... Além de autor, cantor de rara voz, intérprete
de desnudar a alma dos sons, ainda é de um egoísmo desmedido,
não deixando
margem a que outros possam lançar sobre si a tal nefasta cal
do esquecimento.
Pois agora
venho declarar que sim, posso o João Bosco sossegadinho de vez em quando,
na terceira prateleira à direita, onde ele há de "quedar-se
inerte" como certos processos, diante do que estou a escutar. Claro que
não se trata da obra toda, bem ao contrário. Algumas canções
ganharam roupinhas novas, outras vozes a cantar com igual sabor e diferentes
nuances, arranjos que renovam o já ouvido, de tal maneira que podem conviver
em harmonia com o compositor. Mas há outras interpretações
que passam tão longe, não aportam no meu cais, vão sumindo,
pequeninas, no horizonte diminuto diante desse arrebol cegante que é João
Bosco; essas não merecem uma segunda audição, hei de ouvir
tais canções sempre no original.
Causou-me
forte impressão a Sandra de Sá em "Tiro de Misericórdia",
principalmente pela voz magnífica, ilimitada, que coisa quente, voz de
chocolate. E olha que nem gosto da De Sá...
Pedro Mariano
me vem de novo surpreender. Mas surpreender por quê? Melhor dizendo, de
novo me vem agradar, nem dá vontade de ouvir o original diante de tal
competência, independência, numa versão atual e agradável
de ouvir. Bonitinha. Mas algumas me fizeram correr pra apagar dos ouvidos a conspurcação
(putz!), como uma certa chatice que trouxe o meu filho lá de dentro, a
pedir que, pelo amor de Deus, eu baixasse até acabar a música,
que ele não suportava o cara! coincidentemente eu estava levantando
pra procurar o Bosco e apagar aquele momento medonho.
Djavan em "Desenho
de Giz", quase apaga as marcas deixadas nas tais pedras do cais
pelo Bosco... Um espetáculo de elegância e sentimento
contido, próprio
do Djavan. As duas interpretações podem conviver sem
conflito nas minhas audições, até o Bosco há de
apreciar a canção
apresentada de outro jeito, na voz suave do Djavan, com o piano celestial
do Leandro Braga, aquele acordeon de Chiquinho Chagas, que ornamenta
como uma flor no cabelo, um toque de cor em negra cabeleira. Da primeira
vez em que canta o trecho "quem pode querer ser feliz se
não
for por amor",
ah, escutem esse momento fugidio de perfeição e me
digam se alguém
no mundo pode cantar igual. E de novo, já no final,
repete e zomba do sentido da palavra perfeição... zombam
todos os instrumentos, como se cada um tocasse sozinho, meu Deus,
como sou grata por esse momento bem aqui ao meu dispor, ao toque
dos meus dedos!...
"Boca
de Sapo" é moleza pra qualquer um, acho que até eu, cantando,
agrado a mim mesma, com toda redundância já inerente à canção,
se é que me entendem... É uma canção de não
existir, um acinte, faz pouco da gente, de mim que nada sei de nada, em se tratando
de música. Acho essa música gloriosa. Bom, ninguém acreditaria,
considerando que outras pessoas sintam a música do meu jeito, digamos
plebeu, que alguém conseguisse cantar algo que fica bonito de qualquer
jeito, ainda mais bonito. Aí vem o Zeca Pagodinho e vocês em coro
irritado berram: "Ah, não vale, Zeca Pagodinho?!" Pois é;
ele consegue cantar uma coisa obviamente gostosa, até com farinha do Ceará (agora
eu apanho...) ainda melhor. Incrível o resultado, só ouvindo. E
o coro, gente, o coro tá o máximo, até o Almir, o que se
foi - e agora, o que será de nós sem os songbooks?... - participa,
num efeito esfuziante, de arrepiar todo lado direito da perna, cruzes! Pagodinho
recriou, tomou posse, entrando no clima como compositor e encaçapou
mais uma!
Paula Toller
em "Papel Maché" também provoca uma reviravolta
na minha acomodação musical. Nunca mas serei a mesma. Às
vezes me lembra a Gal... Alguma coisa me instiga nesse número,
mas não sei
definir o que será... algo mais que dá mais perfeição,
corpo e luz, o que pode ser? Parece que de repente Paula vai atrás,
se joga e tem medo de cair e não voltar mais... Que voz linda
dessa menina, não é? Peraí... quem toca, que
negócio é esse?
Gente, é só o Giamandu, o Yamandu?!!! Delicadeza e
força
juntas, uma voz e o violão. Esse garoto ainda vai longe...,
muito longe, até eu ainda vou me render.
Nana Caymmi
e "Falso Brilhante" são duas demonstrações
de excelência musical, uma voz e uma canção especiais
de novo, uma enriquecendo a outra. Não me provocou surpresa,
foi só uma
constatação. Nana Caymmi é tudo isso, "Isso
e Aquilo",
que a gente já sabe, mas quer ouvir de novo; "Falso Brilhante"
não
tem nada de falso, é autenticidade de valor incalculável,
que música!
Nem por isso Nana, cantando a canção, deixou de me
matar um bocado... É aquela
flauta ressoando no final, os últimos acordes do piano... Égua!
É claro
que Leila Pinheiro também se distingue dentre os eleitos...
Uma garganta engastada no ouro das manhãs, jóia rara
do Xá, ah, eu adoro
a Leila Pinheiro! A voz! Não confundir criador e criatura...
E vou ver quem a acompanha, quantos acompanham: só (só?...)
o Guinga, fazendo às
vezes de uma orquestra inteira a envolver a Leila. Fica até parecendo,
tal a intimidade, que eles passaram 3 meses ensaiando, obsessivamente,
como São
João Gilberto. Belo efeito.
Fátima
Guedes, Nelson Faria e Ney Conceição também entram na minha
relação das melhores do volume 3 do songbook.
Mas o que
eu queria mesmo quando comecei a escrever, era falar apenas de
um intérprete,
e o episódio da caneta quebrou a espontaneidade; precisei
ouvir tudo de novo, recobrar a minha zenrenidade e domar essa selvageria
que me causou escutar o Ney. A canção é do Bosco
Pai e Bosco Filho, "Enquanto
Espero".
Sim, foi justamente
o Ney Matogrosso, o arranjo, a canção, aquela dor de todos os amores
abandonados a compor o bolero, lágrimas, tanto desalento me causou essa
dor captada de alheios corações, que me assaltou a vontade de me
ir afogar... - Alfonsina, me espera, que mergulho nas águas dessa baía
e te encontro logo mais, entre algas e mururés...
A voz do Ney,
quem há de negar? É uma griffe inimitável,
ninguém
há de alcançar aquele acento que é como um pedacinho
do seu (e do nosso) coração que se derrama na sangrante
voz de eterna juventude, de paixão que não se acaba,
como um Dorian Gray eternizado nessa inimitável maravilha
vocal. Para mim, ele atingiu o ápice
nessa interpretação. E a canção também.
Pois é,
eu sei que vocês vão dizer: não é bem assim... E vai
ser proveitoso, de alguma forma, saber do que causou em vocês a audição
do volume 3. Quem sabe não encontro ressonância desses momentos
vividos na solidão da minha sala, num final de tarde, momentos tão
plenos que quisera saber que outros tiveram alterada a rotina de seus dias
com a riqueza desses sons?
Um abraço,
ao som do bolero...