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Bim Bom:
A Contradição sem Conflitos de João Gilberto

 

Autor: Walter Garcia
São Paulo: Paz e Terra, 1999

 

João Gilberto, considerado o papa da bossa nova, recebe neste livro de Walter Garcia o seu estudo mais detalhado. Cobrindo 224 páginas, Bim Bom faz um levantamento de como a batida tão famosa do violão de João Gilberto se tornou o símbolo de um movimento musical que atravessou fronteiras e levou a música brasileira a terras distantes.

 

MB
Egídio Leitão

Bim Bom

Bim Bom trata-se de um livro diferente sobre a bossa nova. Aqui o gênero é discutido com base nas suas origens a partir do trabalho daquele artista mais representativo do movimento: João Gilberto. Não se fala apenas das influências que Johnny Alf, João Donato e outros mais tiveram como precursores da bossa nova. A histórica gravação do álbum de Elizete Cardoso, Canção do Amor Demais (1958), onde o baiano primeiro mostrou a batida diferente no seu violão nas canções "Chega de Saudade" e "Outra Vez", é dissecada, analisada e levada a minúcias que por vezes chegam a níveis impressionantes onde o leitor fatalmente se perguntará: "Será que o João fez isso mesmo pensando em todos estes detalhes?" Bom, se você já leu alguma coisa sobre o fenômeno João Gilberto, você sabe do que ele é capaz no que tange ao seu perfeccionismo.

O livro se divide em duas partes. A primeira parte cobre toda a análise da batida do violão. Se você não tem conhecimentos de teoria musical, você vai folhear estas primeiras páginas rapidamente. Até mesmo com algum conhecimento sobre música, o leitor há de ver que os primeiros três capítulos são demasiadamente técnicos e muito acadêmicos (este trabalho foi a tese de mestrado do autor) ao ponto de estontear o leitor. Por diversas vezes eu mesmo me perguntei qual o propósito de tal minúcia e se este trabalho era algo dedicado apenas aos meios acadêmicos. A intenção do autor finalmente atinge um ponto decisivo no meio do livro, mais precisamente na página 98. Ali ele diz que a sua

intenção -- aliás, explicitada ao longo de todo este estudo -- é justamente esta: avaliar o ritmo do violão de João Gilberto mediante sua intervenção na música brasileira.

Bom, me parece uma longa introdução para expor esta intenção. Antes disso, a discussão girou em volta de classificações de diversas canções pré-bossa nova: "Solidão" (1954), "Teresa da Praia" (1954), "Mocinho Bonito" (1957) e outros sambas-canções. Houve também o discurso sobre o samba-canção tradicional e o uso e técnicas de violão naquelas canções. Ao se chegar no ponto entre a regularidade e não-regularidade que se apresenta nos acordes da bossa-nova, o autor nos aproxima ao sub-título do livro: a contradição. É interessante se ler este trecho:

Concluindo, os dois princípios articulados na batida da bossa-nova são a regularidade, que rege os baixos, e a não-regularidade, que orienta os acorde na variação de uma base que, algumas vezes, é realmente tocada. Ressalte-se que essa articulação soa sem qualquer conflito pois, no fluxo da canção, a não-regularidade se constitui a partir da regularidade, e a regularidade é reforçada pela não-regularidade.

Trocando em miúdos há um equilíbrio na batida do violão embora aparentemente pareça que sejam "desenhos assimétricos", usando as próprias palavras do autor. Estas duas idéias, na verdade, se complementam na batida do violão de João Gilberto. Encerrando esta primeira parte, Bim Bom discute ainda a ideologia da bossa nova argumentado que ela é ao mesmo tempo samba e não é. O autor diz que a bossa "se define por conciliar a negação com a afirmação do samba".

João Gilberto
©Eduardo Baptistão

Na segunda parte, a discussão enfoca o canto-falado de João Gilberto tomando por base apenas uma de suas composições, "Bim Bom".

O jogo entre a voz, o canto e o violão recebe uma discussão por muitas vezes interessante. É a naturalidade com que João Gilberto apresenta estas características que o tornam o mito que ele é. O artista faz tudo com "absoluta consciência", diz Walter Garcia. Ele cita o próprio João Gilberto:

Música é som. E som é voz, instrumento. O cantor terá, por isso, necessidade de saber quando e como deve alongar um agudo, um grave, de modo a transmitir a mensagem emocional.

Infelizmente, a análise de palavra por palavra do texto da música em "Bim Bom" se torna um pouco exaustiva. Há inclusive um gráfico com a letra e altura relativa das notas na canção. Na verdade, o gráfico é a representação com palavras das notas da canção. Penso que a própria notação musical teria surtido o mesmo efeito sem a necessidade de reinventar o que já existe.

Fechando o livro, há ainda cinco anexos cobrindo tópicos variados, incluindo textos sobre Mário de Andrade, Noel Rosa, transcrições rítmicas, assim como também a discografia e bibliografia consultadas.

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