Bim Bom trata-se de um livro diferente sobre a bossa nova.
Aqui o gênero é discutido com base nas suas origens a
partir do trabalho daquele artista mais representativo do movimento:
João
Gilberto. Não
se fala apenas das influências que Johnny Alf, João Donato
e outros mais
tiveram
como precursores da bossa nova. A histórica gravação
do álbum
de Elizete Cardoso, Canção do Amor Demais (1958),
onde o baiano primeiro mostrou a batida diferente no seu violão
nas canções
"Chega de Saudade" e "Outra Vez", é dissecada,
analisada e levada a minúcias
que por vezes chegam a níveis impressionantes onde o leitor
fatalmente se perguntará: "Será que o João
fez isso mesmo pensando em todos estes detalhes?" Bom, se você já leu
alguma coisa sobre o fenômeno João Gilberto,
você
sabe do que ele é capaz no que tange ao seu perfeccionismo.
O livro se divide em duas partes. A primeira parte cobre toda a análise
da batida do violão. Se você não tem conhecimentos
de teoria musical, você vai folhear estas primeiras páginas
rapidamente. Até mesmo com algum
conhecimento sobre música, o leitor há de ver que os
primeiros três capítulos
são demasiadamente técnicos e muito acadêmicos
(este trabalho foi a tese de mestrado do autor) ao ponto de estontear
o leitor.
Por diversas vezes eu mesmo me perguntei qual o propósito de
tal minúcia e se este trabalho era algo dedicado apenas aos
meios acadêmicos. A intenção do autor finalmente
atinge um ponto decisivo no meio do livro, mais precisamente na página
98. Ali ele diz que a sua
intenção -- aliás, explicitada ao longo de todo este estudo
-- é justamente esta: avaliar o ritmo do violão de João Gilberto
mediante
sua intervenção
na música brasileira.
Bom, me parece uma longa introdução para expor esta
intenção. Antes
disso, a discussão girou em volta de classificações
de diversas canções
pré-bossa nova: "Solidão" (1954), "Teresa
da Praia" (1954), "Mocinho
Bonito" (1957) e outros sambas-canções. Houve também
o discurso sobre o samba-canção
tradicional e o uso e técnicas
de violão naquelas canções. Ao se chegar no ponto
entre a regularidade e não-regularidade que se apresenta nos
acordes da bossa-nova, o autor nos aproxima ao sub-título do
livro: a contradição. É interessante
se ler este trecho:
Concluindo, os dois princípios articulados na batida da bossa-nova
são a regularidade, que rege os baixos, e a não-regularidade,
que orienta os acorde na variação de uma base que,
algumas vezes, é realmente
tocada. Ressalte-se que essa articulação soa sem qualquer conflito
pois, no fluxo da canção, a não-regularidade se constitui a partir
da regularidade, e a regularidade é reforçada pela não-regularidade.
Trocando em miúdos há um equilíbrio na batida do
violão embora aparentemente
pareça que sejam "desenhos assimétricos", usando
as próprias palavras do autor. Estas duas idéias, na verdade,
se complementam na batida do violão de João Gilberto.
Encerrando esta primeira parte, Bim
Bom discute
ainda a ideologia da bossa nova argumentado que ela é ao mesmo
tempo samba e não é. O autor diz que
a bossa "se define
por conciliar a negação com a afirmação do
samba".