Ana Lee
Ana Lee
ALCD 2001 (2002)
Tempo: 43'23"

Ana Lee
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Uma primor de gravação, Ana Lee é um destes CDs que você não consegue escapar a partir da primeira audição. Paulista de nascimento, Ana começou a carreira artística aos 27 anos de idade em 1996 cantando em diversas casas noturnas de São Paulo. Foi portanto natural que ao escolher as músicas para este seu primeiro trabalho ela buscasse novos talentos da música brasileira e, em particular, de sua São Paulo nativa. A escolha não poderia ter sido mais acertada.

Ana LeeAna Lee é uma excelente estréia. Co-produzido com André Magalhães, este CD não esconde as fortes raízes musicais no mundo desta intérprete de voz suave e cativante. O trabalho e esmero desta obra estão estampados nas músicas, no belo encarte e nos arranjos criados por Ana Lee e um grupo de músicos da melhor categoria. Ana conta com as participações de Bráulio Mendonça e Ozias Stafuzza (violão), Célio Barros (baixo acústico), Itamar Vidal (clarone), Swami Jr. (violão 7 cordas), André Magalhães (piano e percussão) além de quase uma dezena de outros nomes incluindo destaques para Oswaldinho do Acordeon e Miguel Briamonte (piano).

A minha curiosidade e instantânea paixão por este CD me levou a conversar com Ana Lee sobre este magnífico lançamento.

EL: Ana, a pergunta mais óbvia para começar este papo é como surgiu o conceito deste trabalho? Em outras palavras, o que a inspirou e deu a motivação para o CD?

AL: O que eu queria desde o início era um repertório que fosse orgânico, integrado e que refletisse o que vinha pensando acerca do amor, do desejo, da vida, até aquele momento. Musicalmente, o conceito procurado foi o da mistura de ritmos e instrumentações, num equilíbrio que resultasse no relevo da palavra. Já vinha trabalhando há anos em várias músicas com os ótimos violonistas Bráulio Mendonça e Ozias Stafuzza, que estão comigo há muitos anos (o Bráulio, há aproximadamente 8 anos!), e gravar o CD foi o passo lógico que tinha de ser dado. Foi tudo acontecendo consequente e naturalmente, mas o gatilho mesmo partiu do convite da dona de um pequeno estúdio (TC - aonde gravávamos nossos CDs demos), para que lançássemos um CD pelo selo que ela queria criar. Parti para a pesquisa de repertório impulsionada por esse convite, que acabou tomando outros rumos e resultando nesse trabalho, sobre o qual estamos conversando.

EL: Aliás deve estar aí neste diferente rumo que você menciona acima um dos fatores do CD ser tão atraente aos nossos ouvidos.

AL: Obrigada pelo elogio. Acho que tem razão,  esse novo rumo tem a ver com a elaboração de um projeto, um empenho maior e que acabou desembocando numa produção mais bem elaborada, em outro estúdio, anos depois daquele primeiro convite.

EL: Dentre as 12 faixas do CD, duas são mais conhecidas. Como foi a escolha de "O Que Será" e "Modinha"?

AL: "O Que Será - À Flor da Pele" é uma música que para mim (que também tenho formação em psicologia e em psicanálise) fala do desejo, do desejo do inconsciente. Que não tem medida, remédio, limite, vergonha, governo, descanso, cansaço... Cantava-a espontaneamente nos ensaios, com tempo livre, bastante interpretativo. Até hoje não gosto de ensaiar muito essa música. E sempre fico arrepiada ao cantá-la nos
shows. Tem uma força magistral. Sinto cada palavra proferida em canto. O que será que me dá...o desejo que brota, irrompe e é causa de (quase) tudo.

EL: A propósito, sua interpretação deste clássico buarquiano é ímpar. O primeiro verso só com a sua voz é marcante. Quando o baixo de Célio Barros entra no segundo verso, o ouvinte já está aprisionado na beleza deste arranjo minimalista. Outro ponto muito bonito na sua interpretação são as pequenas variações nas notas que você canta. Você dá um toque todo seu e de rara beleza para esta canção.

AL:A gravação de "O Que Será – À Flor da Pele" com o Chico e Milton está tão entranhada no imaginário de todos que a conhecem, com ênfase rítmica e os vocais maravilhosos do Milton, que, ao meu ver, para valer à pena gravá-la, tinha de quebrar um pouco a similaridade. O primeiro verso só com a voz e o baixo acústico do Célio Barros entrando depois pontuando e costurando as palavras ressaltaram o poema, a letra. Quanto à "Modinha", não conheci uma só pessoa que conhecesse. Nunca ouvi outra gravação. Tinha apenas a partitura dela. Os autores Manuel Bandeira e Jayme Ovalle são conhecidíssimos, mas dessa "Modinha, opus nº 5", até hoje, não ouvi nenhuma outra gravação.

EL: Belíssima canção, de fato, e com um sabor nostálgico às vezes que nos faz lembrar de Villa Lobos.

AL: É! Tem esse clima. Fala de um amor trovadoresco, devocional, incomum nos nossos dias. Acho belíssimo esse amor, embora possa ser idealizado. Fico procurando o quanto de verdade e o quanto de idealizações há no que chamamos amor. Adoro a "Modinha".

EL: E outra vez, você usa um arranjo simples onde sua voz e a instrumentação não obstruem a beleza dos versos. O cello de Marisa Silveira junto ao violão nylon de Bráulio Mendonça são perfeitos elementos para a sua voz.

Ana LeeAL: O Bráulio e eu temos uma química musical excelente! Ele confecciona os arranjos, em geral, a partir do meu jeito de cantar.  O cello da Marisa complementou. Mas fazendo um contra-ponto com a idéia de amor romântico, ouvi uma música no último CD do Lô Borges que traz outra faceta, bem contemporânea acerca do amor, que também me interessa: "O amor é vão / para todo mundo / para nós / então por que não vem?" O contrário dessa idealização trovadoresca em que o amado se confunde com o objeto de desejo único, como a procurada "metade da laranja", a tampa do nosso buraco/vazio. Acho interessante essa outra visão que há nessa letra do Arnaldo Antunes. Parte do pressuposto de que o amor é uma invenção mesmo (invenção da linguagem?), é vão, e aceitando isso, reinventa a relação. Enfim, são saídas possíveis para o desejo. Acreditar, não acreditar. Indentificarmo-nos ou não... com o que chamamos amor.

Essas duas músicas e as outras que também falam sobre o amor e/ou desejo, para mim, representam saídas possíveis para o amor. Para pensá-lo, vivê-lo. Não necessariamente nessa ordem.

EL: O que falou acima vai exatamente de encontro a esta paixão pela língua, tão abundante na nossa música. O CD prima por apresentar valores novos e de grande força lírica e melódica. Temos faixas do Chico César e José Miguel Wisnik -- que acredito ser um dos grandes poetas contemporâneos -- mas metade do disco traz a assinatura do Walter Garcia (conheço o livro dele, Bim Bom). Fale um pouco dessas escolhas.

AL: Escolhi pelas músicas. Mas posso dizer que admiro o Wisnik há muito tempo. Fui ao show de estréia do CD São Paulo-Rio e na mesma semana estava ensaiando com o Bráulio algumas músicas do CD dele. Colhi "Virtual" (que se pergunta pela verdade ou invenção do amor) desse CD e "Se Meu Mundo Cair" (que apresenta uma saída corajosa para a tragédia "amorosa ou outra": Se meu mundo cair, eu que aprenda a levitar. Fazia parte do espírito buscado. Responsabilização. Não queria lamentos, nem discursos "dor-de-cotovelo" naquele momento. Embora esse tom melancólico, onde há vítima e vilão, por assim dizer, exista e vá talvez sempre existir quando se fala no discurso amoroso..

O Walter Garcia, cujo livro você já resenhou, é um compositor que eu queria reapresentar às pessoas, cantando as músicas dele. Acho que acrescentei uma dose de densidade, de sentimento a uma certa racionalidade que as músicas dele tem. Walter sempre foi muito talentoso. Conheço-o há vinte anos e há algo além da nossa amizade que conta muito, que apenas experimentamos (foi um aperitivo) em uma das músicas do disco ("Meu Amor por Você" -- que foi uma encomenda): Ele consegue traduzir muito bem o que quero dizer em suas letras.

EL: E que letras ele compõe! Na primeira faixa, "Meu Amor por Você", ele escreve:

Esse amor que inventei de sentir, sem fingir
Mata a máscara da dor

Isto é quase Fernando Pessoa!

AL: Pois é! Eu havia pedido a ele uma letra sobre um amor que continuasse a existir à revelia do que o amado pudesse dele fazer. Um amor que pudesse sobreviver à morte permanecendo amor . Uma canção de fé no amor. "Meu amor por você, eu perdi e encontrei. Meu amor por você eu vivo sem querer". Isso é para poucos, claro. Há pessoas que devem ser eliminadas sumariamente de nossas vidas, que nos causam males e sofrimentos incontornáveis, pela possessividade extremada ou outros motivos. Não nomeio isso como amor. Não estou falando de concessões benevolentes e muito menos masoquistas. Estou falando de um amor que deixa o outro ir embora e supera a perda sem puni-lo pela dor inerente à situação, que deixa ao outro a possibilidade de escolha, por crer na verdade do amor. Essa comunicação entre mim e o Walter foi antes do início da fase de gravação, mas no dia seguinte à nossa conversa, a música já estava pronta!

O Chico César é um grande representante da leva de novos compositores mais conhecidos, ao lado do Lenine (que adoro) e Zeca Baleiro, por exemplo. Com o Chico funcionou diferente: Pedi uma música a ele por intermédio do André Magalhães. Ele ouviu parte do material já gravado e me presenteou com "Aplauso", música inédita, que é a minha cara! Eu fui buscar a fita, fui ouvindo no carro rindo muito prazerosamente, muito surpresa por me sentir tão bem retratada na letra da Tata Fernandes. A idéia estava concluída. A música caiu como uma luva. Sou-lhe muito grata pelo presente.

EL: E que beleza o toque do acordeon do Oswaldinho se juntando à percussão criada pelo André Magalhães com o violão de 7 cordas do Swami Jr.

Além da sua voz cativante e interpretações com muita alma, a instrumentação deste trabalho é de chamar a atenção. Nunca é excessiva. Em particular, o uso do clarone, cello e fagote em algumas faixas dá um ar clássico que não chega ao pedantismo. Aqui neste CD, a dosagem é exata. Além disso, estes instrumentos fazem harmonia perfeita com sua voz e até mesmo o belo encarte com ilustrações de Klimt, Van Gogh, Botticelli e Matisse. Você tinha essas idéias para os arranjos ou foi tudo se materializando no estúdio?

AL: Pois é! O disco foi produzido pelo competente e adorável André Magalhães. A base da instrumentação na maioria das músicas é feita pelos dois violonistas Bráulio Mendonça e Ozias Stafuzza e a bateria/efeitos do próprio André. Mas contamos com participações de ótimos músicos de estilos diversos, mas mantendo sempre em primeiro plano a preocupação com o relevo da palavra. É um disco recheado de sutilezas.

Ana LeeEL: E que são descobertas a cada nova audição. Adoro trabalhos que se inovam desta maneira.

AL: Adoro especialmente os instrumentos que você citou: o fagote, do [Luís Antônio] Ramoska, o clarone, do Itamar Vidal, ao lado do baixo acústico do Célio Barros, o Cello, da Marisa [Silveira]. Todos os gravões. Porque doam densidade à instrumentação, compatível com os climas todos das músicas em questão.

EL: O balanço perfeito para sua voz.

AL: E é um disco que não tem baixo elétrico em nenhuma faixa! Os graves não são os convencionais. Acho que o clima do disco, como um todo, também aparece nos detalhes do encarte. O Nascimento de Vênus e Primavera, do Botticelli, eu trouxe de Roma, já pensando no disco, bem antes das gravações. A partir daí, escolhi outras pinturas para compor o encarte, harmonicamente. O beijo, de Klimt foi sugestão da designer. Queria muito ter colocado Sta. Tereza Dávila flechada pelo anjo, em êxtase, assim como o rapto de Perséfone, ambas esculturas cujas gravuras trouxe de Roma também, mas não se encaixaram no projeto estético do encarte. Quem sabe caibam no próximo trabalho?

EL: E esta não poderia ser melhor notícia para seus ouvintes: um próximo trabalho.

Se você não encontrar o CD de Ana Lee na sua loja preferida, você pode contactá-la neste endereço.

MB
Egídio Leitão
Maio 2004

Faixas:

    1. Meu Amor por Você (Walter Garcia)
    2. Virtual (José Miguel Wisnik - Alice Ruiz)
    3. O Que Será (À Flor da Pele) (Chico Buarque de Hollanda)
    4. Jongo Tradição II (Walter Garcia)
    5. Se Meu Mundo Cair (José Miguel Wisnik)
    6. Concerto em Paris (Alessandro Ayudarte - Sérgio Varkala)
    7. 'Tô Ligada, 'Tô Legal (Walter Garcia)
    8. Meu Desejo (Walter Garcia)
    9. Deserto Para Erik Satie (Lincoln Antonio - Walter Garcia)
    10. O Todo Abismo (Lincoln Antonio - Walter Garcia)
    11. Modinha (Jayme Ovalle - Manuel Bandeira)
    12. Aplauso (Chico César - Tata Fernandes)
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