Uma primor de gravação, Ana Lee é um
destes CDs que você não consegue escapar a partir da
primeira audição. Paulista
de nascimento, Ana começou a carreira artística aos
27 anos de idade em 1996 cantando em diversas casas noturnas de São
Paulo. Foi portanto natural que ao escolher as músicas para
este seu primeiro trabalho ela buscasse novos talentos da música
brasileira e, em particular, de sua São Paulo nativa. A escolha
não poderia ter sido mais acertada.
Ana
Lee é uma excelente estréia. Co-produzido com André Magalhães,
este CD não esconde as fortes raízes musicais no mundo desta intérprete
de voz suave e cativante. O trabalho e esmero desta obra estão
estampados nas músicas, no belo encarte e nos arranjos criados
por Ana Lee e um grupo de músicos da melhor categoria. Ana conta
com as participações de Bráulio Mendonça e Ozias Stafuzza (violão),
Célio Barros (baixo acústico), Itamar Vidal (clarone), Swami Jr.
(violão 7 cordas), André Magalhães (piano e percussão) além de
quase uma dezena de outros nomes incluindo destaques para Oswaldinho
do Acordeon e Miguel Briamonte (piano).
A minha curiosidade e instantânea paixão por este CD me levou a
conversar com Ana Lee sobre este magnífico lançamento.
EL: Ana, a pergunta mais óbvia para começar
este papo é como
surgiu o conceito deste trabalho? Em outras palavras, o que a inspirou
e deu a motivação
para o CD?
AL: O que eu queria desde o início era um
repertório que fosse orgânico, integrado e que refletisse
o que vinha
pensando acerca do amor, do desejo, da vida, até aquele
momento.
Musicalmente, o conceito procurado foi o da mistura de ritmos e instrumentações,
num equilíbrio que resultasse
no relevo da palavra. Já vinha trabalhando há anos
em várias músicas
com os ótimos violonistas Bráulio Mendonça e
Ozias Stafuzza, que estão comigo há muitos anos (o
Bráulio,
há aproximadamente
8 anos!), e gravar o CD foi o passo lógico que tinha de ser
dado. Foi tudo acontecendo consequente e naturalmente, mas o gatilho
mesmo partiu do convite da dona de um pequeno estúdio (TC
- aonde gravávamos nossos CDs demos), para que lançássemos
um CD pelo selo que ela queria criar. Parti para a pesquisa de repertório
impulsionada por esse convite, que acabou tomando outros rumos e
resultando nesse trabalho, sobre o qual estamos conversando.
EL: Aliás deve estar aí neste diferente rumo que
você menciona acima um dos fatores do CD ser tão atraente aos nossos
ouvidos.
AL: Obrigada pelo elogio. Acho que tem razão, esse
novo rumo tem a ver com a elaboração de um projeto,
um empenho maior e que acabou desembocando numa produção
mais bem elaborada, em outro estúdio, anos
depois daquele primeiro convite.
EL: Dentre
as 12 faixas
do CD, duas são
mais conhecidas. Como foi a escolha de "O Que
Será" e "Modinha"?
AL: "O Que Será - À Flor
da Pele" é uma
música que para mim (que também tenho formação
em psicologia e em psicanálise) fala do desejo, do desejo
do inconsciente. Que não tem medida, remédio, limite,
vergonha, governo, descanso, cansaço... Cantava-a espontaneamente
nos ensaios, com tempo livre, bastante interpretativo. Até hoje
não gosto de ensaiar muito essa música. E sempre fico
arrepiada ao cantá-la nos
shows. Tem uma força magistral. Sinto cada palavra proferida
em canto. O que será que me dá...o desejo que brota,
irrompe e é causa de (quase) tudo.
EL: A propósito, sua interpretação deste clássico
buarquiano é ímpar. O primeiro verso só com a sua voz é marcante.
Quando o baixo de Célio Barros entra no segundo verso, o ouvinte
já está aprisionado na beleza deste arranjo minimalista. Outro ponto
muito bonito na sua interpretação são as pequenas variações nas notas
que você canta. Você dá um toque todo seu e de rara beleza para esta
canção.
AL:A gravação de "O Que Será – À Flor
da Pele" com o Chico e Milton está tão entranhada
no imaginário de todos
que a conhecem, com ênfase rítmica e os vocais maravilhosos do Milton,
que, ao meu ver, para valer à pena gravá-la, tinha de quebrar um
pouco a similaridade. O primeiro verso só com a voz e o baixo acústico
do Célio Barros entrando depois pontuando e costurando as palavras ressaltaram
o poema, a letra. Quanto à "Modinha", não
conheci uma só pessoa
que conhecesse. Nunca ouvi outra gravação. Tinha apenas
a partitura dela. Os autores Manuel Bandeira e Jayme Ovalle são
conhecidíssimos, mas dessa "Modinha, opus nº 5",
até hoje,
não ouvi nenhuma
outra gravação.
EL: Belíssima canção, de fato, e com um sabor nostálgico
às vezes que nos faz lembrar de Villa Lobos.
AL: É! Tem esse clima. Fala
de um amor trovadoresco, devocional, incomum nos nossos dias. Acho
belíssimo esse amor, embora
possa ser idealizado. Fico procurando o quanto de verdade e o quanto
de idealizações
há no que chamamos amor. Adoro a "Modinha".
EL: E outra vez, você usa um arranjo simples onde
sua voz e a instrumentação não obstruem a beleza dos versos. O cello
de Marisa Silveira junto ao violão nylon de Bráulio Mendonça são
perfeitos elementos para a sua voz.
AL: O
Bráulio e eu temos uma química musical excelente! Ele
confecciona os arranjos, em geral, a partir do meu jeito de cantar. O
cello da Marisa complementou. Mas fazendo um contra-ponto com a idéia
de amor romântico,
ouvi
uma música no último CD
do Lô Borges que
traz outra faceta, bem contemporânea acerca do amor, que também
me interessa: "O
amor é vão
/ para todo mundo / para nós /
então por que não vem?"
O contrário dessa idealização trovadoresca em
que o amado se confunde com o objeto de desejo único, como
a procurada "metade da laranja", a tampa do nosso buraco/vazio.
Acho interessante essa outra visão que há nessa
letra do Arnaldo Antunes. Parte do pressuposto de que o amor é uma
invenção
mesmo (invenção da linguagem?), é vão,
e aceitando isso, reinventa a relação. Enfim, são
saídas possíveis para o desejo. Acreditar,
não acreditar. Indentificarmo-nos ou não... com o que
chamamos amor.
Essas duas músicas e as outras que também falam sobre
o amor e/ou desejo, para mim, representam saídas possíveis
para o amor. Para pensá-lo, vivê-lo. Não necessariamente
nessa ordem.
EL: O que falou acima vai exatamente de encontro
a esta paixão pela língua, tão abundante na nossa música. O CD prima
por apresentar valores novos e de grande força lírica e melódica.
Temos faixas do Chico César e José Miguel Wisnik --
que acredito ser um dos grandes poetas contemporâneos -- mas metade
do disco traz a assinatura do Walter Garcia (conheço o livro
dele, Bim
Bom). Fale um pouco dessas escolhas.
AL: Escolhi pelas músicas. Mas posso dizer
que admiro o Wisnik há muito tempo. Fui ao show de estréia
do CD São Paulo-Rio e na mesma semana
estava ensaiando com o Bráulio algumas músicas do CD
dele. Colhi "Virtual" (que se pergunta pela verdade ou invenção
do amor) desse CD e "Se Meu Mundo Cair" (que apresenta uma saída
corajosa para a tragédia "amorosa ou outra":
Se meu mundo cair, eu que aprenda a levitar. Fazia parte do espírito
buscado. Responsabilização. Não queria lamentos,
nem discursos "dor-de-cotovelo" naquele momento. Embora esse
tom melancólico, onde há vítima e vilão,
por assim dizer, exista e vá talvez sempre existir quando se
fala no discurso amoroso..
O Walter Garcia, cujo livro você já resenhou, é um
compositor que eu queria reapresentar às pessoas, cantando
as músicas dele. Acho que acrescentei uma dose de densidade,
de sentimento a uma certa racionalidade que as músicas dele
tem. Walter sempre foi muito talentoso. Conheço-o há vinte
anos e há algo além da nossa amizade que conta muito,
que apenas experimentamos (foi um aperitivo) em uma das músicas
do disco ("Meu Amor por Você" -- que foi uma encomenda): Ele consegue
traduzir muito bem o que quero dizer em suas letras.
EL: E que letras ele compõe! Na primeira faixa,
"Meu Amor por Você", ele escreve:
Esse amor que inventei de sentir, sem fingir
Mata a máscara da dor |
Isto é quase Fernando Pessoa!
AL: Pois é! Eu havia pedido a ele uma letra
sobre um amor que continuasse a existir à revelia do que o
amado pudesse dele fazer. Um amor que pudesse sobreviver à morte
permanecendo amor . Uma canção de fé no amor.
"Meu amor por você, eu perdi e encontrei. Meu amor por
você eu
vivo sem querer". Isso é para poucos, claro. Há pessoas
que devem ser eliminadas sumariamente de nossas vidas, que nos causam
males e sofrimentos incontornáveis, pela possessividade extremada
ou outros motivos. Não nomeio isso como amor. Não estou
falando de concessões benevolentes e muito menos masoquistas.
Estou falando de um amor que deixa o outro ir embora e supera a perda
sem puni-lo pela dor inerente à situação, que
deixa ao outro a possibilidade de escolha, por crer na verdade do
amor. Essa comunicação entre mim e o Walter foi antes
do início da fase de gravação, mas no dia seguinte à nossa
conversa, a música já estava pronta!
O Chico César é um
grande representante da leva de novos compositores mais conhecidos,
ao lado do Lenine (que adoro) e Zeca Baleiro, por exemplo. Com o
Chico funcionou diferente: Pedi uma música a ele por intermédio
do André Magalhães.
Ele ouviu parte do material já gravado e me presenteou com
"Aplauso", música
inédita, que é a minha cara! Eu fui buscar
a fita, fui ouvindo no carro rindo muito prazerosamente,
muito surpresa por me sentir tão bem retratada na letra da
Tata Fernandes. A idéia estava concluída. A música
caiu como uma luva. Sou-lhe muito grata pelo presente.
EL: E que beleza o toque do acordeon do Oswaldinho
se juntando à percussão criada pelo André Magalhães com o violão
de 7 cordas do Swami Jr.
Além da sua voz cativante e interpretações
com muita alma, a instrumentação deste trabalho é de
chamar a atenção. Nunca é excessiva.
Em particular, o uso do clarone, cello e fagote em algumas faixas
dá um ar clássico que não chega ao pedantismo.
Aqui neste CD, a dosagem é exata. Além
disso, estes instrumentos fazem harmonia perfeita com sua voz e até mesmo
o belo encarte com ilustrações de Klimt, Van Gogh,
Botticelli e Matisse. Você tinha essas idéias para os
arranjos ou foi tudo se materializando no estúdio?
AL: Pois é! O disco foi produzido pelo competente
e adorável André Magalhães. A base da instrumentação
na maioria das músicas é feita
pelos dois violonistas Bráulio Mendonça e Ozias Stafuzza
e a bateria/efeitos do próprio André. Mas contamos
com participações de ótimos músicos de
estilos diversos, mas mantendo sempre em primeiro plano a preocupação
com o relevo da palavra. É um disco recheado de sutilezas.
EL: E que são descobertas a cada nova audição.
Adoro trabalhos que se inovam desta maneira.
AL: Adoro especialmente os instrumentos que você citou:
o fagote, do [Luís Antônio] Ramoska, o clarone, do Itamar Vidal,
ao lado do baixo acústico do Célio Barros, o Cello,
da Marisa [Silveira]. Todos os gravões. Porque doam densidade à instrumentação,
compatível com os climas todos das músicas em questão.
EL: O balanço perfeito para sua voz.
AL: E é um
disco que não tem baixo elétrico em nenhuma faixa!
Os graves não são os convencionais. Acho que o clima
do disco, como um todo, também aparece nos detalhes do encarte.
O Nascimento de Vênus e Primavera, do Botticelli, eu trouxe
de Roma, já pensando no disco, bem antes das gravações.
A partir daí, escolhi outras
pinturas para compor o encarte, harmonicamente. O beijo, de Klimt
foi sugestão da designer. Queria muito ter colocado Sta. Tereza
Dávila
flechada pelo anjo, em êxtase, assim como o rapto
de Perséfone, ambas esculturas cujas gravuras trouxe de Roma
também,
mas não se encaixaram no projeto estético
do encarte. Quem sabe caibam no próximo trabalho?
EL: E esta não poderia ser melhor notícia para
seus ouvintes: um próximo trabalho.
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