Ataualba Meirelles
Trégua do Absurdo
Pelourinho Discos BS008 (2005)
Tempo: 51'31"

 

A Recompensa da Espera

 

Resenha por
Junho 2005

Trégua do Absurdo
Faixas:

Todas as músicas são de Ataualba Meirelles.

  1. Francamente #2
  2. Vibhuti
  3. 2002
  4. Pedra que Brilha -- mp3
  5. Atlântico Sul
  6. Clube X -- mp3
  7. Aiuruoca
  8. Lu e Lena
  9. NinGameOver
  10. Pierrot Solaire

Em 1999, Ataualba Meirelles (27/09/1961 - Salvador, Bahia) produziu um álbum diferente chamado Projeto 1000 Zic Buk 2. O que era diferente naquele trabalho se enquadrava em duas frentes. Primeiro, o álbum não tinha um enfoque nos ritmos mais populares da Bahia. Segundo, Ataualba incluiu várias faixas instrumentais, o que indicou que este artista tinha coisas guardadas para o futuro. Assim sendo, depois de algum tempo e dois anos no seu próprio estúdio, Ataualba gravou Trégua do Absurdo, um lançamento instrumental com composições originais suas. O álbum foi lançado oficialmente em abril de 2005 e se trata do primeiro CD solo de Ataualba.

Ataualba Meirelles já vem trabalhando com música há 23 anos. Durante todo este tempo ele já se apresentou e dirigiu trabalhos com outros artistas no Brasil e no mundo, incluindo Margareth Menezes, Gerônimo, Batatinha, Saul Barbosa, Edil Pacheco e Xangai entre outros. Também já escreveu música para o cinema e o teatro. É mesmo em seu estúdio em casa que ele produz e escreve seus arranjos.

Ataualba MeirellesTrégua do Absurdo mais uma vez demonstra o cuidado e esmero que Ataualba tem em suas produções. Ao fazer a escolha de não gravar ritmos populares da Bahia e fazer um álbum totalmente instrumental foi nas palavras de Ataualba um quase suicídio. Sem grande apoio financeiro, Ataualba teve que depender da boa vontade de seus músicos amigos para fazer este trabalho a qualquer preço. Além de compor e arranjar todas as faixas aqui, ele ainda toca baixo, sintetizadores, violão e um pouco de percussão. Os músicos em destaque no CD incluem Andréa Daltro, Nana Meirelles e Júlio Miranda (vocais); Marquinho de Carvalho (teclados); Ricardo Marques (guitarras, cavaquinho, bandolim); Tony Augusto e Jurandir Santana (guitarras); Márcio Diniz e Mauro Tahim (bateria); Giba Conceição (percussão); Danilo Santana (piano); Tota Portela (flautas); Joatan Nascimento (trompete); e Fred Dantas (trombone).

Os diversos estilos musicais -- ijexá, baião, samba, pop, jazz e até mesmo o popular axé -- enriquecem o prazer de se ouvir Trégua do Absurdo. Quer seja na eletrizante abertura, "Francamente #2", com o constante duelo entre a percussão e os sintetizadores, ou na guitarra de Jurandir Santana em "Vibhuti", ou mesmo nas flautas transversais de Torta Portela em "Pedra que Brilha" ou ainda no alegre trombone de Fred Dantas no samba gostoso "Clube X", este trabalho vai muito além do que Ataualba chamou de "original e alegre". Trégua do Absurdo tem muito molho e tempero dos bons.

Francamente #2
Tem esse título porque a linha de baixo e a levada foram tiradas de um antigo tema meu (Francamente), mas a melodia e harmonia são outras. A linha de baixo utiliza uma série de 8 notas, claro, sem  o rigor do serialismo acadêmico. Algo que gosto nela é o jogo rítmico. Embora tenha a alma em 6 por 8, sua levada finge um 4 por 4 o tempo todo e os agogôs insistem em tocar um ijexá no meio disso. A gravação foi valorizada pela ótima voz de Andréa Daltro, que, como poucas, soube interpretar o tema, numa região tão difícil.

Vibhuti
É um ijexá onde o tema é meio insólito. A parte B tem um clima especial com a participação do vocal de Júlio Miranda. Os improvisos dos ótimos músicos Danilo Santana e Jurandir Santana (não são irmãos), levantam a música.

2002
Foi a primeira faixa gravada. Com ela, estou homenageando duas pessoas que nos deixaram em 2002. Bastola, era percussionista baiano e muito querido de todos por aqui. George Harrison também era muito querido de todos e deixou em mim uma saudade inexplicável. No meio da música, tento mostrar uma passagem, entre dois momentos, num trecho vocal. Mas o segundo momento, inesperadamente, segue igual ao primeiro, lembrando que a vida continua tanto pra nós, quanto pra eles. Essa  música aqui na cidade, em forma de vinheta, virou a marca de um momento cultural na TV, e persiste a quase dois anos.

Pedra Que Brilha
É um baião alegre e cheio de flautas. Na língua indígena Tupy-guarany, "pedra que brilha" significa Itaberaba, que é uma cidade da Bahia, bastante quente, onde minha mãe nasceu. A música foi classificada entre as 14 melhores (em meio a 1.500 músicas) no Festival da Rádio Educadora, em 2004. No início, fazemos um maracatu, sugerido pelo baterista Márcio Diniz, que ficou muito bem com o molho da zabumba e triângulo de Giba.

Atlântico Sul
Mostra a cara dos anos 70, com aquele groove da guitarra wah wah de Tony Augusto e o piano rhodes de Marquinho de Carvalho. Os repiques com vassourinha (idéia de Giba) criam um clima especial na intro e na parte B. O tema é curto no trompete de Joatan Nascimento mas diz tudo. De resto, é groove.

Clube X
Era o nome de um time de futebol que meu pai tinha na minha infância. Meu pai é engenheiro e daí o nome cartesiano. Fiz um sambinha típico, que me lembrasse as partidas de futebol que assistia na infância. O trombone de Fred Dantas faz o tema inicial e valoriza seu momento no improviso. Na parte B, o vocal de Júlio caracteriza o tema final, arrematando a coisa toda.

Aiuruoca
É uma pequena cidade do sul de Minas Gerais. A cidade tem características singulares. Fica entre altas montanhas e são avistados ovnis com frequência. A música é algo próximo do cool jazz, bastante valorizada pela interpretação do piano de Marquinho e do trompete de Joatan.

Lu e Lena
É uma homenagem a minhas filhas. A música é um pop despretensioso e bom de ouvir, onde arrisco um vocal no final.

NinGameOver
É a mais radical das faixas. Com uso desenfreado da técnica serial, a música entra num clima de game, questionando o momento de nossa civilização global (será fim de jogo?). Depois a música vai dar num sambinha, usando como harmonia, apenas um bandolim.

Pierrot Solaire
É é uma brincadeira com o axé music (ritmo bastante popular na Bahia). A música faz uso, na parte B, de uma linha serial no baixo e uma melodia igualmente serial na flauta. Tudo caminhando sobre um compasso alternado (7 por 4). O nome sugestivo é uma alusão a Pierrot Lunaire de Schönberg (um marco da música serial), e ao mesmo tempo, uma referência ao carnaval baiano.

Se você quiser entrar em contato com o artista sobre este trabalho, pode escrever para ele neste endereço.

MB E.L.